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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Guaman Poma de Ayala

"Nova crônica e bom governo é o livro mais comovedor e violento da história da literatura peruana. Finalizado em 1615 pelo cronista índio Guaman Poma de Ayala, permaneceu ignorado durante três séculos, até que em 1908 foi descoberto pelo bibliotecário alemão Richard A. Pietschmann na Biblioteca Real de Copenhagen. Desde então, é cada vez maior o reconhecimento do seu extraordinário valor como a fonte mais importante para conhecer a vida do povo andino, desde o amanhecer da sua civilização até o primeiro século da conquista espanhola."
(versão brasileira: eu mesmo)

Tinha escrito um monte de coisas mas, sinceramente, depois dessa descrição não é preciso dizer mais nada. Fica a dica para quem quiser procurar na internet (para os mais preguiçosos, aqui), já que não empresto o meu pra ninguém no universo - tirando o Alan, claro.

Ah, de leitura relacionada vai uma dica: "A conquista do México", de Hernán Cortez. Qualquer livraria vende a versão de bolso. E ele vale a pena para todos que se interessem por aquele globo que engloba também o próprio umbigo. Cultura (e reflexão) nunca é demais.

***
Comprometimento. A gente (não) vê por aqui.

Dependendo do assunto, manter uma rotina pode ser chato ou divertido. Mas normalmente é necessário. Se falamos de geração de conteúdo, ainda mais. Afinal, é isso que agrega valor ao seu trabalho e ao hipotético conhecimento sobre determinado assunto. Que, no meu caso, é escrever.

Assim, estou de volta mais uma vez. Mas acredito que a mudança de sentido da Ponte - e da minha cabeça - ajude a manter uma regularidade. A conferir.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quando eu for ditador

Final de semana entre grandes e velhos e novos amigos numa cidadezinha perto de Teresópolis. Horas de trânsito e inúmeras demonstrações de estupidez alheia me deram razões de sobra pra levar adiante minha teoria legislativa, valendo a partir do dia em que assumir como ditador universal intergaláctico tupiniquim:

burrice deveria ser crime inafiançável.

O raciocínio é simples. Vários dos problemas que temos hoje em dia, pequenos e grandes, vêm da capacidade humana de não entender o que está ao seu redor, o que dizem... enfim, tudo. Pessoas burras reagem exageradamente, geram discussões e brigas, vão de encontro à teoria da evolução e fazem os tatatataravós dos vermes que devoraram Darwin se revirarem debaixo da terra.

Por isso, vou começar o quanto antes minha subida hierárquica nas entranhas do poder no país. Quando chegar ao topo dou um golpe de Estado e pronto, aplico minhas leis que vão finalmente colocar o país nos trilhos.

Mas se você é burro e está lendo isso... Caguei. Quando você entender já vai estar a caminho do exílio no Acre, para abrir caminho na mata com as mãos e construir o curralzinho Acre-Bolívia, também conhecido como transjegue.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Dizer nada, uma arte etílica

- A Quilmes acabou.
- Não! Assim você acaba com minha noite também. A vida dá muitas opções engarrafadas.
- Então você pode escolher várias aqui. A Stella é muito boa.
- Não gosto da Stella. Tem gosto de criança gritando.
- VOcê já provou uma criança gritando?!
- Metaforicamente.
- E como é?
- É como tomar um gole de Stella.
- Então é melhor eu te trazer uma Bohemia.
- Mas você abre pra mim?
- Hoje meu namorado vem me buscar, me liga amanhã.
- Amanhã é que dia?
- 19.
- Não posso, vou refazer meu mapa astral.
- Eu continuo virgem.
- E seu namorado?
- Ele é um câncer.
- Se eu fosse você, fugiria.
- Se você disser que vai pra Bom Jesus do Itabapoana comigo, eu largo essa bandeja agora.
- Lá eu não piso mais, ainda me devem 2 vacas e uma cesta de kiwis.
- Pena... Então vou lá buscar sua Bohemia.
...
- Cara, que papo foi esse de vocês?!
- Sei lá. Sei que tô com vontade de tomar uma Stella.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O corte da uva

Caminhando pelo galho da videira, a uva tropeça no cabo do arado encostado na árvore, deixado displicentemente por um dos empregados da fazenda, e cai em cima de uma erva-daninha. Rasga sua pele e abre a carne, deixando o caroço à mostra. Ela sangra, atraindo formigas. Mas, antes de que os sedentos insetos chegassem ao delicioso suco dos deuses beberrões, seu Toshiro - ou Takahiro, ou Matsushiro - encontra o pequeno corpo estendido no chão e o leva para a fazenda.

Lá, coloca o fruto do seu trabalho anual numa cesta, junto de outras que sofreram o mesmo corte (ou cortes devido ao mesmo tipo de acidente, ele nunca soube ao certo), e pisa em cima de todas. Parece um grande shiatsu frutal coletivo, mas é só ganância. Seu Japa, como é conhecido em Santa Bárbara do Oeste, está preparando o sumo para engarrafar e vender ao bar mais pé-sujo da cidade.

Assim é fabricado o famoso Sangue de Boi.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Toca Raul!

Quando eu tinha uns dez, onze anos, comecei a viajar mais com pais e irmão. De carro, sempre, porque pai gosta de dirigir e todo mundo curte ver paisagem. E também porque não rola aeroporto na região Serrana, ou Ubá, ou Brusque, ou etc.

Ao mesmo tempo, aquela foi a época em que o maravilhoso e inovador compact disc, vulgo CD, chegou aqui em casa. Veio num combo som estéreo-vizinhos-curiosos. E mais um monte de cantores e bandas, alguns de talento duvidoso.

Por algum motivo que não faço a menor idéia, com aquela idade eu comprei um CD do Raul Seixas. Por algum motivo ainda mais inexplicável, gravei numa fita cassete e levei numa das viagens que fizemos juntos, pra Friburgo. E os pais, que até então curtiam Trio Irakitan e Tina Turner, prestaram atenção na letra e passaram a pedir Raul sempre que pegávamos a estrada.

Corta para 16 anos depois. Eu e Alan crescidos, já tendo saído e voltado do país umas quantas vezes, pai e mãe já sabendo que em breve saio de casa de novo, voltamos a pegar a estrada. Sim, fomos pra Petrópolis, que é ainda mais logo ali que a África do Sul. Mas foi um belo passeio de dia e meio, com direito a susto familiar, ataque epiléptico de terceiros como pré-espetáculo no Palácio Imperial, fotos com uma Olympus EES-2 recém-encontrada num canto qualquer das coisas do pai e, acima de tudo, a querida união familiar revivida. Com um bônus:


Eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Mais e mais coisas boas estão de volta. Toca Raul!

nota: CD, som estéreo, K7, câmera fotográfica analógica; estou ficando velho.

sábado, 6 de novembro de 2010

Hope you guess my name

...aí o Alexandre entra no blogger cheio de idéias e dá de cara com "666 postagens" na página inicial. Analisando a coincidência e possíveis sinais, decide deixar o texto pra depois e prestar homenagem a uma de suas bandas preferidas.

Melhor fazer isso que bancar o sabido e fazer cagada. "Malandro que é malandro, não é malandro."


"Been around for a long, long year". Queria ter voltado pra casa em 1972.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ah!, meu Brasil...

Pela segunda vez na minha vida, participei de uma maratona. Não por acaso, promovida pela mesma empresa da anterior - só que um caminho inverso. De quarta para quinta, a Alitalia me fez percorrer milhares de quilômetros entre Barcelona, Roma, São Paulo e Rio de Janeiro.

Antes de dar minhas impressões da reentrância no planeta tupiniquim, duas dicas pra meus queridos leitores:

Um, sempre peçam para viajar na saída de emergência dos aviões. As poltronas daí oferecem ainda mais espaço que as da primeira classe. Você só precisa saber falar inglês e não ter um problema como ser cadeirante ou estar grávida (sim, por lei estar grávida é um problema e impede você de viajar ali). E, convenhamos: se a aeronave cair, você não vai poder fazer nada - como abrir a porta de emergência. Você morre. Mas a chance de ele cair é tão grande quanto a do Botafogo ser campeão brasileiro com o Natalino.

Ou seja, você viaja com um latifúndio de espaço a troco de uma hipotética oportunidade de salvar a galera caso algo aconteça. Nada mal.

Dois, nunca deixe de tentar trocar seu vôo só porque a empresa X disse que não tem vaga. Se for uma como a Alitalia, provavelmente eles estarão errados. Eu troquei 10 horas de espera no aeroporto de Guarulhos por 30 minutos de correria para chegar oito horas antes. Com uma bela ajuda do pessoal da TAM. Ponto pra eles.

E foi assim que pisei em território ensolarado de sotaque bonito na hora do almoço. Um sinal do que estaria por vir (comida de mamãe, quatro pratos fundos que me deixaram esparramado no chão da sala por algum tempo). Mas confesso que essa pequena orgia gastronômica, e a óbvia felicidade de estar junto aos que amo tanto, não apagou a péssima sensação que tive do país ou a saudade que o outro lado dessa poça gigante chamada Atlântico deixou em mim. Vou falar disso no próximo texto, porque esse é exclusivamente para resmungar (agora, resmunga você).

Ruas esburacadas. Carros da PM com fuzis pra fora da janela. Favelas em todo o caminho. Trânsito caótico. Cartaz do Eurico com o irônico "ficha limpa" escrito ao lado da cara (de pau) e isso de propaganda eleitoral. Noite cara. Dia caro. Bukowski mal freqüentado. Café no Starbucks a 10 reais.

Eu amo o Rio, amo o Brasil, mas o tempo passa e parece que a gente não aprende nada. Assim é difícil de defender o país. Né não, mestre?


Isso é coisa do satanás!

domingo, 18 de julho de 2010

Lucky bastard!

Sábado, 10 de julho: Alan chega em Barna, e viro minha segunda noite seguida. Domingo, 11: vemos a Espanha ser campeã do mundo e comemoramos como (e com) locais. Segunda, 12: Londres. Um dos lugares mais legais do mundo.

Ah, lá vem o Alexandre falar que cidade tal é legal, que gostaria de morar lá blablabla. Não, ainda que um sim bata à porta. Com zilhões de motivos.

Londres é realmente cosmopolita - não estou falando de ver um par de turistas alemães no mercado ou escutar japonês em um restaurante, e sim de um sheik manda-chuva da Al-Jazeera sentar ao seu lado numa poltrona de loja de departamento e puxar assunto. De vietcongues, indianos e árabes com um inglês perfeito e trabalhando de verdade (não vendendo cerveja numa esquina suja e fugindo da polícia). De ver estrangeiros morando na cidade e não passando uns dias torrando grana em caipirinha e turismo sexual.

Londres tem absolutamente tudo - saindo do hostel em Kensington você tem restaurante árabe de verdade, mercado onde é possível comprar comida pra duas pessoas que dura a noite de quinta e sobra pro café de sexta a menos de 6 libras, uma livraria interessantíssima (pra não dizerem que tô mentindo, olha esse e esse livro que comprei por menos de 5 libras cada) etc. Você quer produtos naturais? Tem. Ah, prefere comprar coisas únicas e ajudar uma criancinha com remela do terceiro mundo? Beleza. E mais etc. A lista parece infinita, paro por aqui e ya está.

Londres dá milhões de opções de diversão - além de trombar com uma galera bebendo civilizadamente suas pintas de Guinness às 19h dentro de pubs e nas janelinhas do lado de fora deles, você encontra tantas opções pra se divertir que é capaz de rodar a cidade a noite inteira sem se decidir. Mas nos decidimos por um restaurante/pub com entrada a 4 libras e jam session de blues aberta ao público. Quando você entra, perguntam se quer tocar ou só assistir. Ainda bem que fiquei com o "só assistir", porque a galera era animal. O som saía lindo. A música era sempre de qualidade. E tudo era cantado com sotaque inglês, o que dá um charme especial. Ah, sim: o lugar era desses que se posiciona como "amigo do meio ambiente", até a cerveja era diferente. Orgânica. Freedom. Muito boa.

Fora Camden Town, que dispensa comentários. Um dos lugares mais ecléticos, divertidos e interessantes que já vi na minha vida.

Londres respira cultura - Dalíescultura Maorivan Eyck ao lado de Van Gogh - grátis? Peça de Shakespeare diariamente e custando míseras 5 libras? Discussões políticas que servem pra alguma coisa? Nem sei tudo que poderia escrever, mas isso e muito mais que vocês pensarem, encontram lá. Se um fica em casa, é por preguiça.

Lá, os aluguéis são caros. Mas, imagino que ganhando ao menos 5 mil libras (e se não meterem a mão no seu salário como na Espanha ou França), seja possível viver muito bem. Inclusive, com um apê num lugar legal. Como o metrô chega na porta da sua casa (às vezes, literalmente) e todos se respeitam no trânsito, o que permite andar de bici pra lá e pra cá, uma temporada na cidade deve permitir uma vida excelente. Inclusive quando sair de férias, já que a moeda deles vale mais que as outras. E, com todo meu respeito ao tio Frank, se você pode ser bem-sucedido , então você pode ser bem-sucedido em qualquer lugar do mundo.


"New Yokr, New York", oscambau! I want to be a part of it, London, London.

Mas outra coisa precisa ser dita. Os brasileiros têm um problema com vir pro exterior, um preconceito que só vai morrer o dia em que a maioria da população puder morar fora (ou seja, daqui a três eternidades). Quando só vêm de turismo, acham que toda a Europa é um grande parque de diversões, uma bagunça/pegação/festas infinitas - e não existe isso. Morar fora é como morar no Brasil: segurar a grana, passar por coisas chatas, conhecer gente interessante e gente escrota, e perceber - ao menos em teoria - que toda cidade funciona igual. A não ser que você seja barman em Ibiza ou Mikonos (e esse seja seu objetivo de vida), sua vida vai ser como aí. Inclusive, conhecendo mais brasileiros do que gostaria.

Nós somos uma praga; se o mundo for destruído por bombas atômicas, só as baratas e nós sairemos dos bueiros pra repovoar o mundo. Espero que não cruzando as espécies.

***
Em todo caso, queridos amigos, relaxem suas cabecinhas que o Alê ainda não perdeu o juízo nem (toda) a memória. Disse que volto pro Brasil e mantenho minha palavra. É hora de resolver minha vida, montar minha casa, daqui a mais um pouco ter minha família, além de ajudar a quem precisa, o país a se desenvolver e tantas outras utopias que só eu acredito que sejam possíveis.

Mas que Londres é uma cidade tentadora, isso é...

***
Ah, claro. Uma das vantagens de estar com a (e na) Espanha nesse mundial da África do Sul é que usar a camisa da seleção te habilita automaticamente a ser uma pessoa querida. No caso do tio que me chamou de lucky bastard na saída de uma loja qualquer, rolou uma pontinha de inveja, também. Mas nada que gritos de España e yo soy español, español, español em museus e pelas ruas não apaguem.

Por esses dias, a Espanha é o Brasil da Europa. Só que em crise.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Deus...

Vaya finde! (já voltaremos com a programação normal)

sábado, 5 de junho de 2010

Oito ou oitenta

Acabei de completar oito meses em Barna. Ao mesmo tempo, me dei conta de que faltam 80 dias pro meu curto vôo Barcelona-Roma-São Paulo-Rio de Janeiro. Começa a contagem regressiva. Mas, dessa vez, com algumas questões que me martelam o martelão:

Volta de vez? Tudo leva a crer que sim. Cansei dessa história de não-casa, não-família, não-trabalho fixo. Desde que mal me entendia por gente, já sabia o que queria ser e como gostaria que fosse minha vida. Falta realizar a segunda parte.

E se te chamarem pra outro lugar? Não gosto de pombos, mas esse sabe o que diz. Ainda assim, cada vez mais sinto que o Brasil é meu lugar. Onde vou fazer uma árvore, escrever um filho e plantar um livro. Seja pelos meus ideais ou pela vontade de fazer parte de um local específico, devo pedroalvarescabralizar, mesmo.

É por isso que você volta? Pelo visto, sim. Família está sempre ao seu lado (e eu, ao lado da minha), amigos de verdade estão presentes ainda que longe (é como busco estar). O resto, ou faz você mesmo ou fica sem. E eu não quero ficar sem.

O que vai ser da sua vida no Brasil? A verdade é que ainda não sei. Volto com minha família como única certeza (não reclamo; muito pelo contrário, amo ser parte de uma família como a minha). Sem emprego, apê ou qualquer outro tipo de segurança. Mas não faz mal, confio no meu taco e não vou demorar muito a ajeitar as coisas. Mas se alguém quiser me manter informado de algumas possibilidades...

Como assim? O quê?

Como assim, sem segurança, e manter você informado de algumas possibilidades? Ah, tá. É que volto com uma mão na frente e a outra atrás - puxando as malas e apoiando o mochilão. Sem grana. E com um mísero shortlist em campanhas integradas do Wave Festival 2010, o que não me faz diretor de criação da Almap. O apê de Copa está nas mãos da minha família gonçalense/curitibana. Etc etc etc. Por tudo isso e muitas outras coisas, informações são sempre bem-vindas.


Mudou alguma coisa? Muitas. Muito. Deixando de lado a parte que não diz respeito só a mim (e que, por isso, diz respeito só a mim), esse "ano sabático de mestrado" fez bastante pela minha cabeça. Até comecei a escrever o que mudou, mas apaguei. Sinceramente não importa. Se isso for verdade, vocês vão perceber. Pro bem ou pro mal.


Enquanto àquela história de confiança? Segue igual. Não dá pra mudar 100% em oito meses, né?

Mais alguma coisa? Sim, várias. Tinha outros pontos em mente quando comecei a escrever esse texto, mas esqueci. Isso é outra coisa que continua igual. Se me lembrar, escrevo uma "parte dois". Por hoje, chega.

Até porque, são 22h30 e preciso decidir o que vai ser do meu dia na noite em que só vão faltar 79 rotações pra minha volta (nada a ver com esse tipo de rotação, por favor).

domingo, 9 de maio de 2010

Eyjafjallajokul, eu e a minha mãe

Mais uma vez, sou obrigado a deixar a série de textos sobre Malta pra depois. Dessa vez, graças à mãe natureza. Aquela que, ao menos por mim, não será homenageada hoje.

O Eyjafjallajokul não é o maior vulcão da Islândia, nem o mais importante. Mas resolveu que era hora de aparecer. Não por pouco tempo, só pra dar uns dias de notícias para os jornais de todo o mundo. Por muito, muito tempo. Espalhando cinzas e caos pela Europa. E cancelando vôos.


O pior de ter um nome impronunciável é que não consigo xingar com propriedade. Dizer "esse vulcão" prejudica bastante minha intenção de odiá-lo. Porque, depois de planejar por um mês quatro dias em Pisa, encontrar sofá e albergue, criar um mini-dicionário básico fundamental de italiano e descobrir coisas que me encantaria fazer, ele fechou o espaço aéreo espanhol e bloqueou meu avião.


Posso resumir meu sábado assim: acordei cedo, perdi aula e paguei 23 euros por um bilhete de ida e volta ao aeroporto de Reus. Viajo uma hora e vinte e dou de cara com um painel que informa o cancelamento de vários vôos. Entro numa fila da RyanAir por mais de uma hora, tendo que dissimular minha decepção enquanto impedia milhares de tentativas de uns marroquinos cretinos de passarem na minha frente. Arrumo um reenbolso pra cerca de dez dias, não sem antes aturar uma catalã dando piti com a funcionária que me atendia. E que queria chamar a polícia, o que atrasaria consideravelmente minha saída daquele inferno.


Por demorar nesse processo, não havia mais ônibus pra Barna quando saí do sagüão. Eram 13h, e o seguinte sairia às 16h ou mais. Paguei 2,20 € por um ônibus pra estação de trem da cidade, mais 7,40 € por uma passagem de volta e 1h de viagem. Demorou mais, claro. E fui obrigado a agüentar um ser roncando metade do trajeto. Ah, sim, perdi a grana do bilhete de volta do ônibus, não reembolsável.


Apesar de tudo isso, estive surpreendentemente calmo durante todo o dia. Talvez porque, no fundo, sabia que não posso me irritar com o inevitável. De que adiantaria me estressar se não ia mudar absolutamente nada? Já tenho muita coisa que tira meu sono, o que não tem jeito não pode entrar nessa lista. Uma prova do meu amadurecimento? Espero.


Só sei que, graças a esse belo sábado, eu descobri que a mãe natureza é mãe também dos juízes de futebol.


***

Mas essa história não pode apagar a estrela do dia: a mãe. Especialmente a minha, que me atura há tanto tempo e conseguiu transformar a união de um óvulo com um espermatozóide em um adulto minimamente educado, com algo de inteligência e tão bom quanto a vida o permite ser.

Minha mãe não lê meu blog, não deve saber que tenho um e, provavelmente, nem sabe o que é um blog. Mas escrevo isso porque ela merece. Porque não é todo mundo que acorda de madrugada pra saber o que você tem. Que faz seu prato favorito quando você está triste por algum motivo que não quer dizer a ela. Que liga sem avisar porque sentiu que você precisa de um afago - e você realmente precisa.

Não é todo mundo que faz previsões que não te agradam, acerta e no fim das contas você se dá conta de que era exatamente o que gostaria. Que chora porque você conseguiu seu objetivo, por mais bobo que seja. Que conta vantagem pras amigas por coisas que você considera normais. Que agüenta sua fase chata de criança, cretina de adolescente e sumida de adulto. Que engole suas palavras feias e louva cada mínimo elogio. Que se orgulha de ter sofrido pra você nascer, e que continua se orgulhando por anos, décadas, o tempo que estiverem juntos, por tudo o que você faz, é ou está. Que se sacrifica por alguém que, segundo a (triste) lógica da vida, viverá mais do que ela. A distância (graças a Deus, física, de "apenas" um oceano) me faz perceber cada vez mais como ela faz falta. Assim como pai, irmão e pessoas amadas em geral.

Quilômetro é uma unidade de medida diretamente proporcional à saudade, e potencializada por datas especiais.

Mesmo tendo consciência de que esta é uma invenção comercial, e de ser dos que defendem que todo dia é dia das mães, não poderia deixar de falar um pouco de uma das pessoas que amo mais que tudo nessa vida. Mais que a mim mesmo, inclusive. Não por falta de amor-próprio, e sim desprendimento pessoal por algo - alguém, no caso - infinitamente maior e melhor do que eu, e que merece todo o amor do mundo.

Por isso, ainda que eu acredite que minha mãe não vai ler esse texto, digo: feliz dia das mães. Te amo.

E, para todas as outras mães da minha vida (tias, avós, sogra, mães de amigos e agregadas em geral), um excelente dia de hoje. Desejando que os outros 364 sejam ainda melhores e mais especiais.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Palamós, Girona, Catalunya, España (ou não)

Quer viajar barato? Pergunte-me como.

E a resposta será "com amigos legais que façam aniversário quando você tem disponibilidade de dias e horas e que resolvam passar um dia na casa de veraneio da família". Pois foi exatamente o que aconteceu nesse fim-de-semana. Por isso, no capítulo de hoje da Ponte Elétrica...

Palamós















Sorrio, eu estive em Palamós.


Pré-história
Alexandre acorda às 8h de sexta e vai pra classe de catalão. Está de volta 13h, almoça e vai pro mestrado às 15h30. Tem aula de 17h às 21h e vai pra casa do aniversariante, Alex (o mesmo da foto de umas postagens atrás). Sai às 5h30, vai dormir às 6h - na casa de um casal de amigos - e levanta às 8h para outro dia de mestrado. Tem aula de 9h às 14h, sai e pega a estrada direto para a casa dos pais do seu companheiro de piso, que fazem uma (outra) calçotada. O almoço pesa, mas ele sai de Premià del Mar - onde vivem - às 18h e pega a estrada outra vez, para Palamós.

Período contemporâneo
Alexandre chega às 20h, a tempo de ver o jogo do Barça. Que empata, e cede a liderança pro (maldito) Madrid pelo saldo de gols. Nesse meio tempo chega o dono da casa, sua namorada e mais um casal de amigos, e vamos jantar. E, a partir daqui, posso descrever tudo pra vocês.

Palamós é um povoado de praia lá pras bandas de Girona, cidade distante 1h40 de Barcelona, onde fica um dos aeroportos grandes da província. É pequenininho, tem cara de cidadezinha da costa nordestina com o turismo como única vocação. Mas não decepciona, porque sabe como explorá-lo.

As ruas são limpas e tudo é bem sinalizado. A praia é limpíssima (vi no dia seguinte, porque à noite é escuro - momento Cléber Machado). Os restaurantes são excelentes, tanto que vão ganhar um parágrafo ou dois à parte. Não tem muito o que fazer à noite, ao menos no inverno. Mas isso não importa quando seu plano é viajar pra casa de um amigo em vez de um hostel em Mikonos.

Coincidentemente, todos os (dois) restaurantes que fomos ficam na carrer Mauri Vilar. Sábado à noite, Can Camí (acho que esse é o nome), um "serve-serve-se" de tapas - que ficam em cima da barra do bar. Você pega, come e deixa os palitinhos que vêm cravados nela no seu prato. Na hora de pagar, contam os palitinhos e te cobram. Existem grandes chances de você topar ali com uma galera mais velha bailando flamenco de forma no mínimo esquisita (talvez por estarem meio borrachos). Além do mais, o local é tomado de desenhos pornográficos na parede. Charmosão.

Já o almoço de domingo foi num local todo bonitinho, com pratos regados e atendimento personalizado (meia hora depois de chegarmos, só tinha a gente) por 15 € o menú. Ô, 15 €! Se pensar que um Burger King te sai à uns 8 €, "tá delícia, tá gostoso". Há muito tempo um espaguete à bolonhesa e um peito de frango com molho alioli não descia tão bem.

Pra fechar o domingão com chave de ouro (apesar de ter vindo antes do almoço), fizemos uma trilha por Castell, que, tal qual a África do Sul, fica logo ali. Pena não ter levado a câmera, porque teria feito umas fotos lindas do lugar. Que é lindo. Uma água transparente estilo filme de 007 que você vê ainda melhor quando sobe o morrinho que fica do lado. Tipo o costão de Itacoatiara, só que menos costão e mais morrinho. Aprendi a encontrar aspárragos, vi um cachorro-vaca e a casa de Dalí - que não sei se era realmente dele, mas tem uma porta em diagonal pra entrar e se parece muito um estúdio, mas sem banheiro (talvez ele levasse a história de "cagar no mato" ao pé da letra). Ah, e também aprendi um pouco sobre a história do lugar, já que em cima do morro tem um sítio arqueológico e eles explicam muita coisa bacana numa daquelas placas turísticas gigantes. En català, cla. Espanhol, em segundo plano.

Pois fica a dica. Se você vier morar em Barcelona ou mochilar por mais do que aqueles três dias de turismo Gaudí-Ramblas-Raval-Gótico, comece a procurar uma pessoa legal que te convide pra um final de semana em Palamós, Girona, Catalunya. Ou, se eu não estiver mais aqui, me pague um bilhete de avião que te levo com o maior prazer.

Adendo: Palamós, o time da cidade, tomou de seis do time daqui de El Prat hoje. Visc al Prat! Visc a Catalunya!