segunda-feira, 19 de abril de 2010

Há dias

O verbo haver é engraçado, apesar de eu nunca rir muito dele. Ou com ele, pra não ser irônico com um grande auxiliar da nossa língua. Caso você fale como eu, claro. Sendo que eu relevo sotaques, gírias e palavras diferentes em geral. Tudo em prol de Camões, Fernando Pessoa e Beto Jamaica.

Há dias eu penso em escrever algo além do que tenho feito. Mais do que problemas de caráter pessoal. Até que, de repente, a gente percebe que "problema" é uma palavra mal utilizada. Problema é tão relativo quanto a teoria de Eistein, só que envolve semântica - aquela palavra que ninguém entende muito bem onde entra ou como funciona no dia-a-dia.

Há dias em que a gente espera A e acontece B. Há dias em que estamos assim e passa assado. Há dias tenho uma sensação estranha que defino como saudade. Há dias eu espero que algo aconteça, que algo venha e me mostre porque há dias em que um simples telefonema muda tudo.

Pois aí está. Aqui, no caso. Hoje. Uma perda que dói como se fosse minha, que mexe comigo como se estivesse batendo no meu ombro enquanto penso no que não gosto de imaginar. Como aquele conhecido distante que, vez ou outra, chama baixinho pra avisar que ainda existe, que nunca esquece de ninguém e que estará sempre ali, à espreita, esperando uma oportunidade para se fazer maior que você.

Há dias em que a gente entende porque é tão pequeno, se comparado ao universo que nunca vamos conhecer mas que nos espera a todos.

sábado, 17 de abril de 2010

Palhaço!

A natureza não foi sábia o suficiente para fazer dos cretinos uma raça estéril (notícia de 2008, cretino atual). Mas o que li no outro dia vai além de qualquer babaquice imaginável, até mesmo pelo mestre. Porque vem de um pai. Ou mãe, não importa. As últimas pessoas nesse mundo que um filho imaginaria que fariam uma brincadeira desse nível (se, depois de lerem meu texto, vocês ainda duvidarem da história, é só voltar no link pra comprovar).






















Tu tá na mão do palhaço, moleque!

É isso mesmo que você (provavelmente não) entendeu. A moda agora são pais que contratam uma figura como essa aí de cima - um Freddy Krueger confeiteiro com a peruca da Duquesa de Alba tingida com marca-texto - pra seguir os filhos pela rua, ligar e mandar mensagens psicopatas por uma semana. Ou seja, sete dias de medo pra que está pra fazer aniversário. Porque isso é uma espécie de presente. Sério.

Ah, só pra constar: a criança só ganha o bolo - muito mixuruca, diga-se de passagem - se fugir da torta na cara. Ou seja, além de sofrer todo esse terror psicológico a criança ainda volta cagada pra casa. Engraçadão, hein, papai e mamãe?

"Pai, me dá um Wii?"
"Quê?! Pedindo presente?! Ahhhhhhhhhhh, muleque!"

Sério. Nem se a criança fosse filha do irmão bastardo do limpador de piscinas Meplastic do vizinho mereceria essa surpresa. E ainda tem gente que não entende porque os menores têm medo de palhaço. Até eu teria!

Mas o mundo dá voltas, e o imbecil que armou essa surpresa vai pagar caro por isso. Ou vocês já viram algum psicólogo cobrar barato pela hora da consulta?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Saudade?

Talvez, se isso for aquela coisa que faz tudo recordar o que deixamos pra trás - ou momentaneamente de lado. Desde um dia que começa com o sol batendo forte na sua janela até um mísero meio pacote de feijão guardado no fundo do armário, e que você encontra sem querer.

Talvez, se isso for aquela palavra que só existe em português e que precisamos de um dia inteiro para explicar. Ou um telefonema para justificar.

Talvez, se isso for aquela história de "tá tudo certo", "não vou pensar nisso agora", "tudo se ajeita, sem problema" ou outras frases entre aspas.

Talvez, se isso for aquela vontade de saber de quem é importante para você.



Notícias de todos, quero saber.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A culpa é da chuva!

Como a chuva no Rio não pára, sinto a obrigação de voltar ao assunto. Pensava em fazer um resumão antes de dizer o que quero, mas como sairia daqui, mesmo, fica o link pra quem se interessar.

Caso você não queira ler e tampouco se lembre das aulas de história: desde o início, o processo de favelização está ligado à política. Ex-escravos que não possuíam terra, desocupação forçada promovida por Pereira Passos no início do século XX, ocupação de áreas menos valorizadas e sem infraestrutura (que costumam ser os morros dentro ou ao redor dos centros urbanos).

O tempo passou, as favelas se multiplicaram em número e tamanho e os problemas pioraram consideravelmente, com a grande quantidade de pessoas sem acesso a serviços básicos e o domínio do tráfico. O descaso se manteve, e o processo não só não foi estancado como os sucessivos governos foram permissivos, oferecendo uns poucos e insuficientes serviços. Tudo para manter os votos. Como extra, seus moradores foram taxados de favelados.

O acúmulo de cagadas ao longo das décadas e de gente em condições precárias de vida cedo ou tarde acabaria em tragédia. Ensaiamos ao longo de umas quantas chuvas de verão, expandimos o projeto genocídio de pobres para outras cidades, mas nos mantivemos firmes e fortes no Rio, esperando o dia em que mataríamos muita gente de uma vez só. Muito bem, conseguimos.

Adendo rápido: vale citar a incrível força de vontade de umas quantas famílias, que em várias comunidades resolveram manter seu barraco em vez de agarrar com os dois braços, pernas e boca a sorte de receber uma casa popular. Podem dizer que tinham feito a vida onde estavam, que era melhor para ir ao trabalho, que ficariam marcadas por viverem nesse tipo de construção. Mas apostar com a morte pra ver se o vizinho seria soterrado antes não me soa uma alternativa muito inteligente.

http://www.excelencias.org.br

Pelo amor de Deus, vamos parar de culpar o volume de chuvas que caiu num dia, São Pedro etc. Poderia cair o mundo que, se não houvesse gente nos morros, hoje não haveria tragédia. Tragédia de verdade são os nossos governantes.

Já que temos alguns meses até as eleições, vamos nos informar um pouco sobre quem está no poder. Ver o que fizeram, se têm algum processo. Coisas simples que podem evitar a reeleição de uns quantos cretinos. Melhor que apertar uma combinação qualquer na urna eletrônica e ver quem sai. Ver o site e votar com consciência é o mínimo que podemos fazer agora. E o que deveríamos estar fazendo há muito tempo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Por favor, chuva ruim...

Tão longe, tão perto. Meu incompleto ano e meio na Europa não apaga da minha memória, por pior que ela seja, uma vida inteira passada no Rio de Janeiro, com suas incontáveis chuvas de verão que pararam a cidade. Como aquela de 1996, que acabou com a casa de amigos e desconhecidos em Jacacity, terra de ninguém, matou gente e transformou o bairro - e a cidade - num filme B de terror. De Bollywood.

Pois eis que vejo nos jornais uma outra chuva destruindo a cidade. Desta vez não foi no verão ou durou poucas horas, mas destruiu famílias, lares e o que mais estava no caminho. Certo, Alexandre, e...?

E não acredito que ainda tenha gente justificando que nunca havia chovido assim em abril, que caiu uma quantidade de água maior que o previsto para o mês etc. E se tivesse chovido assim em janeiro, a cidade estaria preparada? As galerias pluviais dariam conta? O esgoto não invadiria as casas? A defesa civil, CET-Rio, prefeitura e governo tomariam as providências devidas, evitariam estragos maiores e tragédias?

Não acredito que ainda existe gente que cai nessa. Ou melhor, infelizmente acredito. Porque nosso povo continua alienado, mal informado, à margem de decisões políticas importantes - e sem a menor preocupação com sua memória política. Continua marionete de qualquer um com um pouco mais de malandragem e menos caráter. Segue explorado, deixado de lado e tratado a pão e circo. E parece gostar.

Sim, é falta de educação. E cultura. Mas também não me parece muito preocupado. "Ah, choveu? Vamos surfar na rua!". Acho legal levar tudo numa boa, assim como relaxar diante do que não tem volta. Eu mesmo fiz, e faço, piadas com o assunto. Mas poderíamos fazer muito mais se déssemos um pingo de atenção para o que está por trás de mais uma catástrofe. Algo inaceitável para um país como o nosso, e ainda menos para a sede da final do Mundial de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Daqui a uns meses vamos às urnas. Por mais crédulo, esperançoso e bobo que seja, vejo pouco factível uma conscientização da população. Porque, se fizer sol, vai ter muita gente na praia. Porque as propostas dos políticos - dos que têm, claro - vão ficar pegando poeira virtual num cantinho escuro da Internet, com uns poucos cliques de vez em quando. Porque basta um pouco de cimento e tijolo pra o miserável escolher um candidato - e não dá pra culpar quem não tem nada, ou consegue o pouco que tem à base de sofrimento diário. Falo e culpo, mais que todos, nós que temos - em teoria - educação formal e discernimento para não cairmos nos mesmos erros outra vez.

A chance de vermos manchetes deste ano requentadas em 2011 é enorme. Mas fazer o quê, se essa chuva ruim cisma em cair forte na cidade maravilhosa?

ps: eu poderia resumir tudo isso citando essa matéria. Mas precisava desabafar. De novo.

Messi

Justiça seja feita, meu irmão já tinha falado dele. E admito que é complicado ser imparcial depois de uma partida como a de hoje entre Barça e Arsenal, ainda mais para um fã de futebol. Mas, por mais difícil que seja buscar palavras para definir o que vi, seria injusto não escrever sobre ele.

Lionel Andrés Messi. Ou Messi, tão simples como as entrevistas depois das partidas - quando o repórter pergunta como é jogar nesse nível e ele responde que fica feliz de ajudar a equipe a ganhar. Ajudar? Na semi-final do torneio mais importante da Europa, contra um dos times mais fortes, bem armados e interessantes do continente, ele marcou todos os quatro gols da sua equipe. Sim, quatro. Um, dois, três, quatro. Imaginem quando ele resolver uma partida para a equipe.

E os quatro gols de hoje não foram sorte, ou casualidade. Messi marcou três em três ou quatro das últimas seis partidas do Barça, se não me engano. Assim como praticamente todos os últimos gols da sua equipe nos últimos oito ou dez jogos. É o artilheiro da Champions (e igualou um antigo recorde de gols marcados numa só partida da competição), da Liga Espanhola, da temporada e um dos maiores da história do clube. Aos 22 anos, pra deixar bem claro.

Acompanho futebol desde muito novo. Jogo, vejo, discuto. Sou apaixonado pelo esporte, e um belo exemplo da "pátria de chuteiras" de que tanto falam. Vi um pouquinho do Zico, algo mais do Maradona, Romário, Ronaldo gordo e Ronaldo bonitão, van Basten, Weah, Zidane e vários outros que deram nome aos meus jogadores de botão. Mas nenhum, absolutamente nenhum, conseguiu me encantar como Messi.

Eu poderia ficar com a definição de alguns narradores das rádios catalães, como "gênio maravilhoso" ou "é de fazer chorar". Mas a melhor é do técnico do Arsenal, Arsène Wenger: "jogador de Playstation". Ou posso fazer o mais natural, e não defini-lo. Porque é impossível. Passei todo o jogo tentando encontrar o que dizer (e vale lembrar que sou redator), mas sinceramente não soube. Não sei. Porque sua forma de jogar, como faz tudo parecer fácil e curte cada jogada que faz, e busca sempre mais, é impressionante. Encantadora. Mágica. _________________ (sua vez de adjetivar).

Acreditem, me dói dizer isso. Mas um jogador como Messi merece ganhar uma Copa do Mundo. Merece ser decisivo pra seleção do seu país - Argentina, infelizmente. Merece ser coroado melhor do mundo outra vez. E, mantendo esse nível por mais alguns anos, merece ser o atleta do século XXI.

Sei que ainda é cedo, estamos em 2010. Mas ninguém chegará aos 1200 e tantos gols do Pelé, mesmo. Nem a mil, na verdade, por mais que o Romário force a barra na contagem. E, se o futebol é outro, influencia no estilo dos profissionais e blablabla, Messi é o símbolo do que pode ser o jogador desta época. E das que vieram algum tempo atrás, e das que estão por vir. Messi é completo, joga para o time e dá show ao mesmo tempo, tudo isso enquanto resolve partida após partida.

Messi é único, craque e já faz parte da história do futebol. E me sinto honrado em ter o privilégio de estar em Barcelona vendo o que não vai se repetir tão cedo.

domingo, 4 de abril de 2010

Chocolate metafórico

Essa semana é santa na Espanha. Literalmente - são sete dias festivos, em que muita gente não trabalha. Pelo menos em publicidade, o que me surpreendeu consideravelmente. E, se contarmos com a segunda-feira algo santa catalã (não sei como eles chamam, sei que aqui ninguém trabalha), são oito dias seguidos de descanso.

A não ser que você não tenha um trabalho. Aí, sua Semana Santa é como outra qualquer: pensando em formas de arrumar emprego, dando conta - ou não - dos seus afazeres domésticos e ficando mais tempo em casa do que gostaria, pra não gastar uma grana inexistente e bagunçar suas contas.

Longe da família, namorada, amigos, praia e troca de tiros em Copacabana, tinha a forte sensação de que a Páscoa passaria em branco. Até que...

















"Se essa bola foi na direção do gol e ninguém evitou que ela entrasse, então foi gol. A não ser que o juiz tenha anulado. Ou não.", diria nosso querido narrador-filósofo.

O pai de um amigo é sócio do Barça e tem carnê pra ir aos jogos. Mas não poderia ver o jogo contra o Athletic ontem. Seu filho (meu amigo) poderia ir no seu lugar, mas resolveu ir ao cine com a namorada. Na cadeia alimentar futebolística do ingresso que sobraria, eu era o predador da terceira escala.

Resultado um: fui ao Camp Nou de graça (outra vez). E o Barça, talvez prevendo que eu não ganharia nem um mísero ovinho, também resolveu me dar um presente. Resultado dois: chocolate. 4 x 1 com dois belos gols do Bojan e um do menino Messi, retorno blaugrana à liderança e pressão nas meninas de branco.

Valeu o sábado. E compensou meu domingo em casa, mais sozinho que botafoguense no Engenhão. Se me serve de consolo, não tem retardado na TV. Bom, talvez tenha. Mas eu não vou procurar saber.

E, agora, tô com a maior vontade de comer chocolate...

ps: se o botafogo nunca lota o Engenhão, por que não mudar o nome do estádio pra Fazendinha? Ou então, transferir todos os jogos oficiais do "time" pra um campo de grama sintética na Barra? Sempre rola churrasco nesses lugares, pelo menos daria mais público.

quarta-feira, 31 de março de 2010

"Tráfego de neurônios"

Finalmente, meu cérebro começa a honrar o silogan deste blog outra vez. E o melhor: não só "via www".

terça-feira, 30 de março de 2010

"Uno, grande, eterno, antimadridista" e freguês

Domingo foi dia de clássico... em Madrid. Atlético x Real, a rivalidade da capital à flor da pele. Algo que não se reflete na posição dos times na tabela, ou no investimento, ou no marketing, ou...

Como todo culé (torcedor do Barça), quero que o Real afunde nas próprias fanfarronices e suma do mapa. Assim, fui assistir ao jogo num bar da peña (torcida) do Atlético. Pequenininho, como a torcida. Mas todo empipadinho, como a torcida. Milhares de faixas, bandeiras, fotos, reportagens, e até uma baratinha passeando na parede, pra me recordar o bom e velho pé-sujo carioca. Vale registrar que foi a primeira barata que vi em cinco meses e meio aqui. Quase acredito que essa é a mascote do bar, como diziam.

Eles realmente são "antimadridistas", como fala o título deste texto - e como estava em uma das bandeiras. Xingamentos, piadas e gritaria eterna contra os blancos. E ainda saímos na frente! Mas, tal qual o Vasco diante do Flamengo (ou o Fluminense, ou o botafogo - com minúsculas, mesmo, como sempre), o pobre Atlético é freguês. Foi pro intervalo com 1x0 e bastaram uns 15 minutos da segunda parte pra levar 3 gols. Resultado: perderam e deixaram o Real junto do Barça, na liderança. O clássico do dia 10 promete incendiar o inferno.
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E, aproveitando o gancho do futebol, Armando Nogueira morreu. Admito que nunca fui fã dele (na verdade, achava um saco), mas é uma pena que se vá. Porque dificilmente dois jornalistas esportivos serão enterrados no mesmo ano - no bom sentido. O que quer dizer que ele fica.

Não desejo a morte ao "homem da palavra fácil". Mas é que a palavra dele fica mais difícil a cada dia. E não basta estar longe, tenho que sofrer com seus comentários em absolutamente todos os jogos do Flamengo, que sempre escuto na Rádio Globo. Isso é propaganda enganosa, e nem processar o Sistema Globo de Rádio eu posso. Me sinto castigado no exílio.

O Armando Nogueira era incrivelmente chato, com suas poesias tediosas sobre temas que já estávamos cansados de ouvir. Mas o Luizinho comenta com um Aurélio na mão - provavelmente a segunda edição dele.  E, por não entender muito bem como funciona esse negócio de tecnologia (quando ele começou, a rádio era literalmente ao vivo, com duas pessoas com cabos de vassoura na mão, falando de dentro de uma caixa de papelão), demora a se entender com essa coisa de microfone, dinâmica etc. Assim que uma frase tão simples como "o Dodô não sabe bater pênalti" demora uns três minutos pra ser completada - isso quando um repórter não o interrompe, e o narrador aproveita pra falar alguma coisa. Qualquer coisa.

Bom, fato é que o Cid Moreira continua firme e forte como azarão em todos os bolões de possíveis presuntos. O prêmio pela cabeça dele vai pagar mais que Mega-Sena acumulada. Talvez, tanto quanto 10% de uma obra pública qualquer de cidade do interior do Brasil.

domingo, 28 de março de 2010

"... no túnel do tempo"

São 5h e ainda estou acordado. É verdade que hoje adiantamos o relógio em uma hora, mas só isso não justificaria eu estar escrevendo. Tampouco posso resumir a volta da minha insônia ao fuso horário - depois de mais de cinco meses em Barcelona, seria algo tão factível quanto o Barrichello dizer que perdeu (mais) uma corrida porque está se acostumando à forma de conduzir da F1.

Sinceramente, tenho sentido saudades do Brasil nas últimas semanas. Mais do que das fronteiras imaginárias que limitam nosso país e não acredito muito, mas sim de tudo o que está contido nelas. A milionésima crise mental que me assola me faz pensar em tudo o que tenho, ou creio que ainda tenho, na minha querida terra.

Nesse momento os vazios são mais vazios, o silêncio grita ainda mais alto, o skype que não toca me deixa mais mudo, o emprego que não tenho aponta o dedo com mais convicção. Aquela ligação besta de cinco minutos pra um amigo faz tanta falta quanto feijão com arroz, a pipoca do cinema me faz salivar, um chope com os que ficaram é um porre de tristeza. E até a felicidade que deveria sentir em pensar em espanhol antes do português na hora de escrever este text me parece uma enorme babaquice.

Pois calhou de eu entrar nos quilométricos túneis do metrô de Barna hoje à noite, indo ver o jogo do Barça, e sentir um pouco de nostalgia extra. No caminho para Joanic (linha 4, amarela) - também conhecido como corredor polonês - havia um cara com toda a pinta de gringo, tocando teclado. A música? Essa! Pra ser sincero, estava bem bosta. Mas foi engraçado ver duas mulheres passando pelo cara e rebolando de leve, brincando com ele - e ver como ele errava as notas depois, e demorava a se reencontrar.

Não dei dinheiro, tanto por estar estragando minhas belas memórias como porque, se fosse pra ajudar alguém, seria um brasileiro. Muy bien, eis que desço um par de escadas e escuto "hoje à tarde a Ponte engarrafou, e eu fiquei a pé...". O sotaque era inconfundível: brasileiro!

Passei, encontrei um euro na carteira e, mesmo correndo o risco de inflacionar o mercado, deixei a moeda no chapéu estilo quipá-baiano-da-vovó de um tiozinho com dread. Sem pedir troco. Ele pára, me olha e diz "muy amable". Achei legal e respondi "tá maneiro, brasileiro, você merece". Eis que ele abre um sorriso e, mal eu viro e volto ao meu caminho, ele manda "então, tá". E me sai com isso aqui. Com uma voz bem melhor que a do papai da Bossa Nova.

Admito que o dia não foi exatamente como esperava, depois de me levantar com boas sensações e um sorriso enorme no rosto. Mas isso me fez um bem como poucas coisas - inclusive as que esperava - teriam conseguido. Por alguns momentos, isso aqui (ô, ô) foi um pouquinho de Brasil (iá, iá).

Sim, com saudade e sentindo muito algumas coisas. Mas, sim, feliz.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lamentável

Começo meu texto com o outro, do qual quero falar. E lembrando a todos que sou "acima de tudo, rubro-negro". Só pra deixar claro que não é por isso que escrevo. Paciência, já, já vocês vão entender tudo.

"O Flamengo parece um antro de marginais
seg, 15/03/10, por Marco D'Eca

O centro-avante Adriano é um cachaceiro marginal e descontrolado, protegido pela mídia flamenguista e financiado por quem quer vê-lo na Copa.

Wagner Love é marginal mesmo - no sentido social do termo - destes que participam de festas com traficantes e acham normal a convivência.

O goleiro Bruno se revela um marido brutamontes, agressor de mulher e farrista inveterado, com as declarações bisonhas que deu à mídia.

Além dele, vários jogadores rubro-negros participam de farras e bebedeiras antes, depois e até durante os jogos do Flamengo.

Nenhum outro time de futebol no Brasil abriga tanta gente desajustada quanto o Flamengo - marginais no sentido amplo da palavra, aqueles que vivem, por exclusão ou opção, à margem da sociedade organizada e civilizada.

Nenhum outro time registra tantos jogadores com problemas sociais quanto o Flamengo.

Este é o Flamengo, parece um antro de marginais.

Movidos, no mínimo, pela ausência de bom senso, os donos da Choppana, em São Luís, resolveram abrir a casa para acompanhamento comaptrilhado de torcida durante os jogos.

Vascaínos disseram não à idéia estapafúrdia e procuraram outro local para se concentrar e fazer a festa do futebol.

Porque sabem ganhar e perder com a mesma educação.

Não dá para compartilhar o mesmo espaço em ambientes públicos com flamengustas - jogadores ou torcedores.

É pedir por agressão...

Texto modificado às 16h55 por conter agressões injustas e desnecessárias a dirigentes e a torcida do Flamengo. Mantêm-se a opinião apenas em relação aos jogadores. a Torcida, minhas desculpas.

Marco Aurélio D'Eça
marcoaureliodeca@mirante.com.br"

Tive o trabalho de transcrever o texto tal qual estava na página da globo.com por alguns motivos. Um, porque me recuso a dar qualquer chance de tráfego a uma página com esse conteúdo - quem quer saber exatamente do que se trata se satisfaz aqui. Dois, porque quero ser honesto com ele para quando começar a bater no seu texto. Três, para que vejam que o infeliz é incapaz de escrever corretamente, e tem a audácia de falar alguma coisa de alguém.

Acredito que não faria falta falar isso, mas ele é vascaíno. Não só pelo elogio à torcida, mas por escrever com tamanha dor de corno numa segunda-feira pós-derrota. Não apenas pós-derrota, mas pós-cagadas do seu (teoricamente) maior astro. Que, não custa nada lembrar, ficou suspenso por um bom tempo. E, até onde eu ser, ser atleta de Cristo não dá gancho em ninguém...

O queridão também demonstrou uma falta de memória incrível, se considerarmos seu último ditador presidente, Eurico Miranda, que roubava renda dos próprios jogos e amordaçava imprensa, sócios e funcionários. Ou mesmo do Dinamite, que rezam as más línguas (repetindo palavras de amigos vascaínos) não é lá um primor de honestidade. Ah, sim, vale lembrar que ali está jogando o Carlos Alberto, e que seus últimos grandes ídolos foram Romário e Edmundo. Que batiam boca abertamente na imprensa, quando o Euricão deixava.

Também não custa nada relembrar o alinhamento de Eurico com o declaradamente pilantra Viana (se era com dois "n", o outro foi roubado). Quem conhece um mínimo de história do futebol carioca sabe da quantidade de falcatruas organizadas e levadas a cabo pelos dois.

Mas não quero falar dessas brechas, apesar de poder. Não quero revidar na torcida vascaína, por não ser necessário e por ter amigos (incluo pai, irmão e demais familiares em amigos) que torcem pelo clube. Muito menos vou ficar xingando o pobre coitado, exatamente por esse motivo: o tal Marco Aurélio é um coitado.

Um ser sem um mínimo de bom senso. E que, justamente pela falta dele, acabou expondo um preconceito lamentável que já deveria ter sido extinto há muito tempo. O país do futebol, que une ricos e pobres, letrados e analfabetos, pretos e brancos e toda a escala Pantone, não consegue se livrar de idéias absurdas e mesquinhas inventadas algum dia por algum idiota.

Chamar alguém de "cachaceiro marginal e descontrolado" é triste, porque alcoolismo é um problema de saúde. De "marginal mesmo - no sentido social do termo" é grave, uma acusação digna de ser provada - e passível de ser punida na falta de provas. "Farrista inveterado" pode até ser um elogio, dependendo da situação. Dizer que "jogadores participam de farras e bebedeiras até durante os jogos" mostra um absoluto desconhecimento do esporte.

E tudo isso em uma idéia pré-concebida - preconceituosa, vamos deixar mais claro - de que um clube de futebol reúne a toda essa gente é deplorável. Sim, o Flamengo é um time de massas. E entre 35 milhões de torcedores é provável que tenhamos bandidos entre nós. Assim como policiais, cientistas, médicos, advogados e até publicitários como eu. Assim como é normal que, devido à paixão de tanta gente, o sonho de todo aspirante a profissional (e profissional também) seja defender as cores do clube - o que aumenta a probabilidade de que alguém com problemas venha a jogar pela equipe.

A maioria esmagadora de brasileiros que pretende viver de jogar bola é a mesma que não tem muitas expectativas na vida, por falta de educação ou oportunidades. Como uma pequena parcela alcança o sonho de ser jogador, e uma ainda mais microscópica consegue viver disso, e um milionésimo dessa gente vive bem como que ganha, é claro que muitos virão de áreas pobres, e muitos voltarão para lá. E vitoriosos e "derrotados" manterão a amizade, o que é louvável. Mais do que o ganha-pão de alguns, que entram no mundo do crime. O que não faz com que os anos juntos sejam esquecidos. O que faz com que um jogador profissional seja visto no baile funk que freqüentava, ou no churrasco de um amigo bandido.

O preconceito exposto por um ser como o que escreveu o texto, compartilhado em muitos dos comentários que vinham abaixo, fatalmente será retransmitido às próximas gerações, mantendo o círculo vicioso de ignorância que impede nossa sociedade de evoluir. Também contribuirá, provavelmente, para que sigam existindo agressões verbais e físicas entre torcedores dos dois clubes (e de vários outros), que não se aceitarão ou dividirão espaço, como o próprio cita no final do seu texto. E, pior ainda, é reflexo de tantos outros preconceitos que estão escondidos numa capa bem rasa de muita gente, e só precisa de um arranhãozinho para abrir um rasgo e transbordar, espirrando em todo mundo. Coisa de cor, raça, gênero, opção sexual, idade, estudo, profissão etc.

Sinto muito, mas o Brasil não vai longe com gente assim. Porque, cedo ou tarde, essa visão curta vira uma barreira e bloqueia o caminho. Vira cegueira. E, em terra de cego, quem tem um olho fatalmente acaba se aproveitando. Basta ver o que passa no país há séculos, literalmente.

Voltando às idéias absurdas do texto do queridão (e estou sendo incrivelmente gentil chamando tudo aquilo de "idéias" e "texto"), é bom ressaltar que jogadores problemáticos estão espalhados por todos os clubes, basta uma lidinha rápida na página de esportes pra satisfazer a curiosidade e conseguir papo pra fofoca com os companheiros de resmungo. E torcida problemática se manifesta em cada canto do país, e fica a dica do jornal pra conseguir mais assunto.

Isso não é uma questão de camisa. É questão de educação. A mesma citada no texto desse tal de Marco Aurélio D'Eça, e que claramente falta na sua vida. E a desculpa que ele foi obrigado a acrescentar no final do seu texto, eu não aceito. É um remendo pra disfarçar sua opinião, que não mudou.

Eu tenho pena. Não dele, mas de quem é obrigado a conviver com tamanha boçalidade.

Emenda Ibsen

Depois do BBB, não se fala em outra coisa nos jornais brasileiros - ou cariocas, pelo menos. A famigerada "emenda Ibsen", que causa revolta, indignação, pânico e até um chororô bem suspeito e botafoguense (esse me pareceu um pleonasmo legal) no Cabralzinho.

Sim, considero uma emenda sem sentido e aproveitadora, que muda as regras do jogo após terem sido estipuladas. Tal qual as viradas de mesa que trouxeram o nensinho de volta à elite. Mas...

Bom, antes vale ressaltar que esta emenda tem toda a pinta (sendo gentil) de manobra política oportunista em ano de eleição. Além do mais, qual o sentido do Acre, por exemplo, receber dinheiro gerado no RJ ou ES? O que fez o Acre pra merecer esse dinheiro, forneceu mão-de-obra? Arriscou o meio-ambiente local? Atraiu empresas? Convenhamos, o Acre nem existe! Mas...

Outra coisa, ainda. Retirar dinheiro de onde ele foi gerado, e de forma relativamente ilegal (sendo gentil outra vez), abre precedentes para mudar as regras do jogo em qualquer situação e/ou assunto. O povo brasileiro já deve estar acostumado com isso, apesar de eu ter a nítida impressão de que a cada dois anos se esquece do que sofreu durante o período entre eleições. Mas...

Mas vamos ver a questão por outro lado. Não pelos políticos aproveitadores como o Ibsen Pinheiro, que pretende marcar pontos no seu estado (RS) e pro seu partido (PMDB) às custas da legalidade, e muito perto das urnas. Tampouco pela (minha) crença de que a redistribuição de royalties é, acima de qualquer coisa, redistribuição de verbas pro bolso de muita gente. Roubalheira. Pilantragem. Mamata. Picaretagem. Como preferirem, não faltam palavras pra definir o que é isso.

Acontece que ninguém (pelo menos que eu tenha visto até agora) vê o assunto por outro ângulo importante que ele também representa. Essa guerra política mostra a dependência que temos, o Rio e todo o país, do petróleo. Uma dependência perigosa, que pode se transformar em um gordo e moribundo cavalo manco dentro de algum tempo. Sinto lembrar (na verdade, não sinto, não) que esta é uma energia não-renovável, e que muitos outros tipos estão sendo estudados e desenvolvidos. E, cedo ou tarde, tomarão seu lugar.

E tem um ponto ainda mais importante e triste nisso tudo. Como pode um país do tamanho do Brasil, com a quantidade de recursos e opções que tem o Brasil, lutar à morte pelo dinheiro do petróleo como se fosse a única fonte de renda? Como pode um Estado como o Rio dizer que não terá condições de cumprir com Mundial e Olimpíadas sem isso? E produtos industrializados? E serviços? E turismo? E tc?

Barcelona deu um giro de 180 graus (360 é voltar pro mesmo lugar, crianças, aprendam de uma vez por todas) para - e com - as Olimpíadas sem uma gota de petróleo. "Ah, mas você está falando da Espanha!". Sim, a prima pobre da Europa junto com Portugal. Vale citar também que os EUA poupam suas reservas de petróleo há décadas, e se desenvolveram em várias outras frentes. "Ah, mas você está falando da primeira potência mundial!". Sim, mas além de não ter nascido assim (na verdade, nasceu como privada da Inglatera), demonstra que existem opções. E ainda poderia citar tantos outros países europeus, Austrália, Japão...

Isso só reforça como não exploramos bem nossos inúmeros recursos. Como não utilizamos o dinheiro que ganhamos para corrigir problemas graves de moradia, educação, saúde e ao menos reduzir a desigualdade social. Como deixamos às moscas cidades com imenso potencial turístico, que acabam por receber muito menos gente - e menos divisas, conseqüentemente. Como nos baseamos em commodities, produtos de baixo valor no mercado. Investimos percentuais ridículos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, ficando pra trás nas disputas que realmente interessas. E por aí vai. A lista é enorme, mas vocês não precisam pensar muito pra completá-la por mim, não é mesmo?

Vamos linchar o Ibsen? Claro. Vamos queimar vivos os políticos malandros que jogam petróleo na fogueira às vésperas das eleições e teimam em se aproveitar que qualquer brecha na lei, mesmo que seja preciso criá-las, prejudicando uma vez mais e sempre a população? Lógico. Mas vamos discutir também essa nossa dependência absurda. Vamos pensar em alternativas para o dinheiro que entra, e em novas formas de fazer com que ele chegue. E não só para Rio de Janeiro, Espírito Santo ou Rio Grande do Sul, mas para os outros 2e estados da Federação também. Vamos deixar de ser hipócritas, e de fazer vista grossa para algo cada vez mais claro.

O petróleo é nosso. Mas, se continuarmos assim, não vamos ter muita coisa além dele.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Que país é esse?

Estou pra contar isso há duas semanas, mas o blogger não me deixava. Pois aí vai a história do ano - até agora, e das que se podem contar.

Estava caminhando pelo centro de Barna num domingo, com meu amigo-companheiro de grupo do mestrado Javi, el sevillano. Daí vem um jovem, para do nosso lado e:

"Ei! Que país é esse?"
"Ahn?!"
"Em que país a gente tá?"
"Espanha."
"Não é Colômbia?"
"Não, cara, é Espanha."
"Estão seguros?"
"Seguro, cara."
"Ai! Aqui não é a Colômbia! Ah!!!"

E se vai repetindo essa última frase, enquanto olhamos pra ele um pouco espantados e rindo muito. Porque a figura pode não estar na Colômbia, mas seu nariz com certeza não está na Espanha.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Palamós, Girona, Catalunya, España (ou não)

Quer viajar barato? Pergunte-me como.

E a resposta será "com amigos legais que façam aniversário quando você tem disponibilidade de dias e horas e que resolvam passar um dia na casa de veraneio da família". Pois foi exatamente o que aconteceu nesse fim-de-semana. Por isso, no capítulo de hoje da Ponte Elétrica...

Palamós















Sorrio, eu estive em Palamós.


Pré-história
Alexandre acorda às 8h de sexta e vai pra classe de catalão. Está de volta 13h, almoça e vai pro mestrado às 15h30. Tem aula de 17h às 21h e vai pra casa do aniversariante, Alex (o mesmo da foto de umas postagens atrás). Sai às 5h30, vai dormir às 6h - na casa de um casal de amigos - e levanta às 8h para outro dia de mestrado. Tem aula de 9h às 14h, sai e pega a estrada direto para a casa dos pais do seu companheiro de piso, que fazem uma (outra) calçotada. O almoço pesa, mas ele sai de Premià del Mar - onde vivem - às 18h e pega a estrada outra vez, para Palamós.

Período contemporâneo
Alexandre chega às 20h, a tempo de ver o jogo do Barça. Que empata, e cede a liderança pro (maldito) Madrid pelo saldo de gols. Nesse meio tempo chega o dono da casa, sua namorada e mais um casal de amigos, e vamos jantar. E, a partir daqui, posso descrever tudo pra vocês.

Palamós é um povoado de praia lá pras bandas de Girona, cidade distante 1h40 de Barcelona, onde fica um dos aeroportos grandes da província. É pequenininho, tem cara de cidadezinha da costa nordestina com o turismo como única vocação. Mas não decepciona, porque sabe como explorá-lo.

As ruas são limpas e tudo é bem sinalizado. A praia é limpíssima (vi no dia seguinte, porque à noite é escuro - momento Cléber Machado). Os restaurantes são excelentes, tanto que vão ganhar um parágrafo ou dois à parte. Não tem muito o que fazer à noite, ao menos no inverno. Mas isso não importa quando seu plano é viajar pra casa de um amigo em vez de um hostel em Mikonos.

Coincidentemente, todos os (dois) restaurantes que fomos ficam na carrer Mauri Vilar. Sábado à noite, Can Camí (acho que esse é o nome), um "serve-serve-se" de tapas - que ficam em cima da barra do bar. Você pega, come e deixa os palitinhos que vêm cravados nela no seu prato. Na hora de pagar, contam os palitinhos e te cobram. Existem grandes chances de você topar ali com uma galera mais velha bailando flamenco de forma no mínimo esquisita (talvez por estarem meio borrachos). Além do mais, o local é tomado de desenhos pornográficos na parede. Charmosão.

Já o almoço de domingo foi num local todo bonitinho, com pratos regados e atendimento personalizado (meia hora depois de chegarmos, só tinha a gente) por 15 € o menú. Ô, 15 €! Se pensar que um Burger King te sai à uns 8 €, "tá delícia, tá gostoso". Há muito tempo um espaguete à bolonhesa e um peito de frango com molho alioli não descia tão bem.

Pra fechar o domingão com chave de ouro (apesar de ter vindo antes do almoço), fizemos uma trilha por Castell, que, tal qual a África do Sul, fica logo ali. Pena não ter levado a câmera, porque teria feito umas fotos lindas do lugar. Que é lindo. Uma água transparente estilo filme de 007 que você vê ainda melhor quando sobe o morrinho que fica do lado. Tipo o costão de Itacoatiara, só que menos costão e mais morrinho. Aprendi a encontrar aspárragos, vi um cachorro-vaca e a casa de Dalí - que não sei se era realmente dele, mas tem uma porta em diagonal pra entrar e se parece muito um estúdio, mas sem banheiro (talvez ele levasse a história de "cagar no mato" ao pé da letra). Ah, e também aprendi um pouco sobre a história do lugar, já que em cima do morro tem um sítio arqueológico e eles explicam muita coisa bacana numa daquelas placas turísticas gigantes. En català, cla. Espanhol, em segundo plano.

Pois fica a dica. Se você vier morar em Barcelona ou mochilar por mais do que aqueles três dias de turismo Gaudí-Ramblas-Raval-Gótico, comece a procurar uma pessoa legal que te convide pra um final de semana em Palamós, Girona, Catalunya. Ou, se eu não estiver mais aqui, me pague um bilhete de avião que te levo com o maior prazer.

Adendo: Palamós, o time da cidade, tomou de seis do time daqui de El Prat hoje. Visc al Prat! Visc a Catalunya!

sexta-feira, 5 de março de 2010

Homenagem a Johnny Alf


















Eu sei, isso era óbvio. Ele já tinha saído do ar há muito tempo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Fomentando o desemprego

Crise, postos de trabalho sumindo, grana curta. Não importa. Sou a favor de acabar com a "profissão" de crítico.

Profissão entre aspas, mesmo. Ó só: como o próprio nome diz, a função do crítico é criticar - coisa que todo mundo pode fazer, já que costumamos ter opinião sobre tudo. É só pensar que somos 190 milhões de técnicos em ano de Copa, 190 milhões de autores na última semana da novela e 190 milhões de analistas políticos em... bom, não é pra tanto. Mas o importante é que cada um tem a sua opinião, não faz falta que pensem por nós. Por mais que alguns prefiram.

Outro ponto importante: as críticas dos "profissionais" tendem a ser destrutivas. Dificilmente você vai ler "excelente obra, um poço de criatividade" ou "finalmente uma obra inspiradora e que desafia os paradigmas". A não ser que role o famoso jabá. Caso contrário, a chance de ser humilhado, trucidado e mijado - com uma alta dose de ironia - é grande. E, convenhamos, pra destruir o trabalho de um já bastam seus competidores e inimigos em geral.

Além disso, não é necessário que alguém diga o que devemos ou não gostar, o que vale a pena ser visto e o que  (ou quem) deve ser queimado. Como deveria ter ficado subentendido há dois parágrafos, gosto é pessoal. Se eu gosto de uma coisa e você não, problema meu. Ou seu. E vice-versa. Mas "eles não têm aquela chispa, aquele quê de inovação e o frescor da nova geração que provoca inquietude"? Pois vá pro inferno, eu curti e ponto final. Vai cagar regra pros seus filhos - se alguém topar ter filhos com uma pessoa tão insuportável como você.

Meu consolo é que essa raça parece ser estéril, tipo cruzamento de cavalo e burro (uma das duas espécies sendo fêmea, claro). E, se não se reproduzem, mantenho a esperança de que um dia eles entrarão em extinção. Sem nenhuma ONG que mantenha um par em cativeiro.

No mais, por que alguém deveria ganhar dinheiro para fazer (mal, ou de má vontade) o que fazemos grátis todo santo dia? Receber para conhecer arte antes dos outros para falar mal e cortar a possibilidade de que as conheçamos? Isso me cheira a uma forma barata (para eles, que ganham pelo "trabalho") de disfarçar a ranzinzez de não ter talento para fazer arte. Aí, o que sobra é falar dela. Destruí-la, na verdade. "Se eu não faço, ninguém faz".

Por mim, iam todos ficar de flanelinha na porta do Caldeirão da Via Show. Ouvindo cover do Soweto a noite inteira.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ops!, molhei as calças

Anos atrás, quando eu ainda era um pobre estudante deslumbrado com o maravilhoso mundo mágico da propaganda, levei meu irmão a um dos 5.967 festivais de publicidade brasileiros, que rolou no BNDES no centro do Rio. Eu era jovem, e ele um pré-adolescente ainda mais deslumbrado com o mundo universitário do que o irmão mais velho. Tudo corria normalmente até que, depois de uma palestra (creio que do Duailibi, o D da minha querida DPZ), saímos praquele coffee-break maroto e estava caindo o mundo. Era como se a Terra tivesse girado rápido demais e sem a gravidade atuando, o que faria com que os oceanos ficassem parados na estratosfera e caíssem de repente. Daí surge uma velha e começa a berrar, colada no vidro do edifício "chuva!!! é água!!!".

Tirando a parte da velha louca, foi exatamente o que aconteceu hoje em Barcelona. Saí de casa com um tempo meia-boca e voltei nadando. Caiu uma tempestade como as chuvas de verão do Rio, que deixam todo mundo ilhado. Não só molhei as calças como as meias, os tênis, a camisa e os dois casacos. Parecia um mendigo dentro do trem para El Prat - só que muito mais cheiroso e com cara de estudante, apesar da barba por fazer. Estudante de história da UFF, talvez.

O que me deixa mais cabreado nessa história toda é que tem feito frio aqui. Quem deu a Barcelona o direito de ter dias com chuva e frio? Tem que se decidir: ou um ou outro. Os dois, definitivamente, não dá. É muito escroto estar a 10*C e com um pé-d'água e vento te açoitando. Condições piores que figurante de novela do SBT é muita humilhação pra quem já carrega o fardo de ser visto como estrangeiro (e sou mesmo, mas e daí?!).

Além do mais, é ridículo ter que andar olhando pro chão e saltando poças. Me senti numa gincana do Faustão. Juro que, se aparecesse um gordo na minha frente, levava uma voadora de graça. Apesar de que, se me jogasse contra alguém e fosse parar dentro de uma dessas poças, corria o sério risco de me afogar. Tinha "um pouco" menos de mobilidade com o jaquetão boladão que pilhei do Alan por cima da minha mochila. Era uma tartaruga morena. Realmente ridículo.

Pra vocês terem uma noção, cheguei em casa e coloquei toda a roupa que estava usando no varal. Menos os tênis, que agora estão no chão da lavanderia, inutilizados para amanhã. O que me fez perceber a importância de ter um mínimo de organização e responsabilidade quando se mora longe de papai e mamãe. Se eu não tivesse posto a roupa pra lavar essa semana, amanhã teria que ir à classe de bermuda. E podem acreditar, pimpolhos, vocês não gostariam de sair de bermuda por esses dias aqui na Europa.

Apesar disso tudo, não posso reclamar. Porque o dia que precisei de sol, ele apareceu num céu azul lindo, o que me permitiu dar um pequeno passo para o Alexandre, mas um grande passo para a sua mente relaxar e se inspirar.

Mas isso eu conto em breve, porque estou com fome, tenho trabalho pra fazer e amanhã acordo cedo, cambada de vagabundos que ficam na cama até mais tarde no sábado.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Preso pelo ouvido

Eu acredito naquela história de "você tem dois ouvidos e uma boca pra ouvir mais e falar menos". Assim que, depois do meu justo e relaxante desabafo no texto anterior, voltei à normalidade. Ou seja, escutar mais.

Isso envolve música, claro. Sou movido à música. Viciado em música. Música, música, música. E como não ou nada egoísta, vou dividir o que tem prendido minha atenção ultimamente. Talvez já conheçam mas, se não, vale a pena dar aquele conferaizer esperto.

Alton Ellis - pré-Bob Marley e padrinho do rocksteady. Ah, não te suena? Talvez isso ajude. Quem nunca escutou este clássico (ainda que em outras vozes) que atire o primeiro cotonete.

Robert Johnson - aquele que "vendeu a alma ao diabo" pra tocar guitarra - e virou lenda. Tudo bem que isso alimenta a lenda, mas não importa. O cara morreu em 1938 tocando assim. É ídolo.

Vashti Bunyan - a pobre (rica?) coitada é desconhecida e ignorada, mas excelente. Vem daquela época em que ser bom era se entupir de coisinhas ilegais e destruir tudo. Pelo seu som, não creio que era do estilo. Mas ficar tanto tempo no anonimato foi uma perda pra todos. Escutem isso e tirem suas próprias conclusões.

Este Bob Dylan e este Iggy Pop - "ah, mas eu conheço eles..." Claro que conhece! Mas as duas músicas têm me encantado dia após dia. A primeira, porque admiro letra, metáforas e comparações que fazem dela uma canção tão potente e atual (só pra constar, ela é de 1964). A segunda, porque não tem o estilo Iggy Pop que conheço mas está de lujo.

Queens of the Stone Age - sim, sou fã. Mas os caras têm uma das melhores bandas que surgiram nos últimos anos. E, além do link no nome deles (de um projeto que vale a pena conferir, por todos os artistas menos CSS), "Like a drug" e "Long slow goodbye" são "totalmente excelentes". Cada vez que escuto, repito umas três vezes cada. E escuto praticamente todos os dias.

Rama Krishna Shiva Linga e Marcel Khalife - quer relaxar? Viajar? Precisa de inspiração? Paz de espírito? Pois ya está. O primeiro, descobri na sorte. O segundo foi dica do Alan, de quando esteve no Marrocos. Os dois são a prova de que existe vida além de Lady Gaga e NXZero.

Sobre brasileiros que me acompanham e me prendem pelo ouvido, falo depois. Já tem coisa suficiente aqui e, se vocês realmente procurarem, é material pra degustar por muitos dias.

Além do mais, sou a favor de um mundo com uma menor quantidade de "informações imperdíveis" ao mesmo tempo.

Bon profit!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Tempo vai, tempo vem...

...e as coisas vão acontecendo. Mudando, seguindo, deixando e se revelando. Passando, no sentido bilíngüe da palavra. Mas, depois de quatro meses e meio, o que eu poderia esperar?

Muita coisa. Começo a pensar em catalão, não apenas antes do castelhano mas antes mesmo do português. De vez em quando me pego ouvindo "cla" ou "altre vegada més, Alexandre?" dentro da minha sempre confusa cabeça. O que é bom, já que significa que aprendo rápido. E ruim, pois me dá uma língua mais pra errar. Como errar é humano, defequei pro fato.

Sinto minhas novas amizades cada vez mais minhas de verdade. Pessoas que gostam de mim e me têm como amigo, boa pessoa, ser diferente e interessante, qualquer coisa dessas que no fim das contas me agrada. Na minha segunda calçotada, domingo passado, infelizmente Alberto passou mal e foi embora mais cedo. Infelizmente mesmo, foi uma perda e tanto no dia. Mas fiquei com a galera, preparei calçots, conversei e ri e aprendi e fiz planos. Divertidíssimo. É muito bom você se sentir parte da vida de pessoas que gosta:














Ilde (esq), Alex, Alex e Carmelo, por exemplo.















Ou Alex (esq), Alex, Martí, Danae e (mão do) Carmelo, por outro exemplo.

Fazendo justiça às amizades, explico o porquê da minha felicidade com todos. Ilde é gente finíssima e me pôs como parte do bando. Alex de óculos me adotou desde que estive em Sevilla. Alex sem óculos, desde que cheguei - e por ser uma pessoa extremamente criativa (como muitos outros; não quero desmerecer ninguém), tem me ajudado muito no momento inspiradíssimo pelo qual tenho passado. Carmelo também me adotou desde que cheguei (assim como Neus, sua parella) e me tem uma amizade que dá gosto. Danae, namorada de Alex de óculos, não só me deu toda atenção do mundo desde que nos conhecemos como foi a primeira a me adotar como catalão - inclusive com "el kit del bon català" de amigo-oculto de Natal (inclusive, tirei ela). E Martí, além de me adotar como amigo de cara, foi a única testemunha do meu sofrimento (e êxtase) no último jogo do todo-poderoso, contra o Grêmio, televisionado e chorado mas com final feliz.

A descrição é grande, eu sei. Mas o carinho que tenho por eles, e outros que não estão nas fotos, é incomparavelmente maior. É a maior prova de que coisas maravilhosas podem vir em um curto espaço de tempo.

***
E o tempo vai levando coisas boas, deixando no lugar certa sensação de vazio e tristeza. O carnaval daqui é uma bosta. Juntando o fato de eu ser vidrado no do Brasil, tenho passado dias caídos. Escrotos, pra ser mais exato.

Mas, sinceramente, isso é o de menos. O pior é ver que todo um país (também conhecido como "pessoas que você gosta muito") te deixam em segundo plano nessa época. Defequei novamente - disse, acabou e pronto. Começo a entender como as coisas devem funcionar a partir de agora. Se ninguém é sincero comigo ou me tem como prioridade, farei o mesmo.

De repente isso me relaxa, tira o peso dos meus ombros e me permite tocar os projetos que tenho por aqui. Que são muitos. E não interessam a mais ninguém além de mim.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Calçotada

(jo vullia escriure en català perquè aquest es un costum de Catalunya, però m'es igual; parlem el portuguès, doncs)

A primeira vez a gente nunca esquece. Ainda mais sendo num lugar legal, dia bonito, com alguém que você gosta, experimentando sensações diferentes. Hoje, um domingo de temperatura agradável como há muito não se via em Barna, fui à minha primeira calçotada.

Calçotada, pra quem não sabe (eu mesmo não sabia), é como churrasco. Substituindo picanha, coração e pão de alho com farofa e "molho acompanha" por calçot. Vulgo cebola.













Muito prazer, sou um calçot sendo preparado por um proletário pobre (redundância).

Sim, cebola. Mas não daquelas gordas que deixa gosto por três dias, ainda que você faça bochecho com água sanitária. É uma variedade cultivada aqui. Não sei se existe parecida no Brasil, pela foto alguém pode me dizer. Sei que o gosto é mais suave. E, junto com o molho específico para ela, fica buenísima.

Mas o dia não foi bom só por isso. A calçotada foi num parque em Begues (se diz "bêgas"), pueblo cerca de Barcelona, com um visual lindo desde a estrada até o local. Além dos calçots, teve carne e pão na brasa - tudo preparado numa churrasqueira coletiva gigante que soltava mais fumaça que o público num show do D2. Ou da Britney Spears, que os jovenzinhos de hoje não estão pra brincadeira.

Rolou futebol. Eu, que não jogava há tempos, babava com a oportunidade. Senti os efeitos da altitude de 2 mil e poucos metros (cadê a Fifa nessas horas?) e meu preparo físico cada vez mais duvidoso (falando da relação resistência aeróbica-idade, pois estou tão em forma que minha calça cai ao andar, estilo funkeiro), mas fui o grande artilheiro da partida de altíssimo nível disputada no Camp Vell - nome inventado agora pra soar mais imponente. Saí de campo ouvindo "com o brasileiro no time fica fácil, né?". Pátria de chuteiras, sim, e com muito orgulho!

Conheci muita gente interessante, até um neto bastardo do meu bisavô. Bom, talvez não ele. Mas vários outros catalães gente finíssima que fizeram com que me sentisse entre amigos. Conversamos, rimos e ganhei mais um sobrinho europeu, Paul, molequinho com menos de 2 anos que não chora quando cai, vai com todo mundo e faz carinho em cachorro espancando o focinho. Foram horas agradáveis, daquelas que dá pena quando sabe que estão chegando ao fim.

E assim levamos mais um domingão em família. Adotiva, mas família.