segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O corte da uva

Caminhando pelo galho da videira, a uva tropeça no cabo do arado encostado na árvore, deixado displicentemente por um dos empregados da fazenda, e cai em cima de uma erva-daninha. Rasga sua pele e abre a carne, deixando o caroço à mostra. Ela sangra, atraindo formigas. Mas, antes de que os sedentos insetos chegassem ao delicioso suco dos deuses beberrões, seu Toshiro - ou Takahiro, ou Matsushiro - encontra o pequeno corpo estendido no chão e o leva para a fazenda.

Lá, coloca o fruto do seu trabalho anual numa cesta, junto de outras que sofreram o mesmo corte (ou cortes devido ao mesmo tipo de acidente, ele nunca soube ao certo), e pisa em cima de todas. Parece um grande shiatsu frutal coletivo, mas é só ganância. Seu Japa, como é conhecido em Santa Bárbara do Oeste, está preparando o sumo para engarrafar e vender ao bar mais pé-sujo da cidade.

Assim é fabricado o famoso Sangue de Boi.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Toca Raul!

Quando eu tinha uns dez, onze anos, comecei a viajar mais com pais e irmão. De carro, sempre, porque pai gosta de dirigir e todo mundo curte ver paisagem. E também porque não rola aeroporto na região Serrana, ou Ubá, ou Brusque, ou etc.

Ao mesmo tempo, aquela foi a época em que o maravilhoso e inovador compact disc, vulgo CD, chegou aqui em casa. Veio num combo som estéreo-vizinhos-curiosos. E mais um monte de cantores e bandas, alguns de talento duvidoso.

Por algum motivo que não faço a menor idéia, com aquela idade eu comprei um CD do Raul Seixas. Por algum motivo ainda mais inexplicável, gravei numa fita cassete e levei numa das viagens que fizemos juntos, pra Friburgo. E os pais, que até então curtiam Trio Irakitan e Tina Turner, prestaram atenção na letra e passaram a pedir Raul sempre que pegávamos a estrada.

Corta para 16 anos depois. Eu e Alan crescidos, já tendo saído e voltado do país umas quantas vezes, pai e mãe já sabendo que em breve saio de casa de novo, voltamos a pegar a estrada. Sim, fomos pra Petrópolis, que é ainda mais logo ali que a África do Sul. Mas foi um belo passeio de dia e meio, com direito a susto familiar, ataque epiléptico de terceiros como pré-espetáculo no Palácio Imperial, fotos com uma Olympus EES-2 recém-encontrada num canto qualquer das coisas do pai e, acima de tudo, a querida união familiar revivida. Com um bônus:


Eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Mais e mais coisas boas estão de volta. Toca Raul!

nota: CD, som estéreo, K7, câmera fotográfica analógica; estou ficando velho.

sábado, 20 de novembro de 2010

Fui indo, fui indo, fui indo...

"Onde quer que vá, vá com todo o coração."
Confúncio

(anotem aí: a frase saiu desse (excelente) blog com sotaque lusitano)

Nos últimos oito anos eu mudei muitas vezes. Duas de país, com duas viagens extras. Deixei o trabalho por três oportunidades, quase larguei propaganda em pelo menos dois momentos da minha vida. Resumindo, um sobe-e-desce bizarro.

Daqui a pouco rola aquele combo fim-de-ano-planos-aniversário. Vou completar 28 verões boladões, com tantas e tantas coisas a comemorar. E muitas outras por fazer. Engraçado que, uns anos atrás, meus projetos eram todos carinhosamente pensados pra uma vida a dois planejada e desejada. Isso não existe mais. Ela não existe mais. Mas finalmente eu posso falar sobre o assunto. Sinal de que a vida está voltando ao normal.

Pode descansar em paz, seu Confúncio, porque eu não sei onde vou mas vou com todo o coração. Até o final.

domingo, 14 de novembro de 2010

- Sonny Rollins

- Fiuk.
- George Benson.
- Mara Maravilha.
- Elke Maravilha.
- Isso é uma clara demostração de que sua teoria das chapinhas estelares possui uma grande falha tectônica quanto à argumentação da realidade aumentada por Tadalafil, meu amigo.
- Sua retórica transversa retomada de acordo com a claridade xenófoba do microcosmos não condiz com seu pós-doutorado virtual em macroenergia freudiana medieval, e você sabe muito bem disso!
- Gente, calma, assim vocês vão provocar um desequilíbrio universal desenfreado que, em justaposição e contrapartida, será prejudicial ao carinho dos bebês de proveta. Será que nada mais importa pra vocês?
- Não. (rá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá)
- Com todo o respeito, meu caro, mas balas de tamarindo chacoalhadas neste recipiente metálico não matam ideais de doce de leite com clima de montanha.
- Então vou embora, que amanhã eu trabalho.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Castelos de areia...

...às vezes se desfazem no mar.


And it really didn't have to stop, it just kept on going.

Clássico é clássico (e vice-versa).

sábado, 6 de novembro de 2010

Vingança

Tem vezes que vale muito a pena.


Foi pênalti, Arnaldo? Eu perguntei ao Caio e ele tem dúvidas.

Hope you guess my name

...aí o Alexandre entra no blogger cheio de idéias e dá de cara com "666 postagens" na página inicial. Analisando a coincidência e possíveis sinais, decide deixar o texto pra depois e prestar homenagem a uma de suas bandas preferidas.

Melhor fazer isso que bancar o sabido e fazer cagada. "Malandro que é malandro, não é malandro."


"Been around for a long, long year". Queria ter voltado pra casa em 1972.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O sexy e plagiado selo Procel

Com a casa em obras, o pai resolveu mexer em coisas até então intocáveis. Algo que não faz o menor sentido, já que tudo numa casa pode ser mudado. Mas a tradição (também conhecida como cisma) impera em vários aspectos da família. A zebra ficou por conta do ar-condicionado.

Os antigos eram realmente antigos. Um, inclusive, deve ter chegado com a Telefunken que, até um tempo atrás, só sintonizava bem a Globo, e o SBT com mais fantasmas que Poltergeist. A mesma TV que era usada com o Atari que eu tinha quando pequeno. O caso é: já que era pra mudar, que fosse mudar ou... mudar de vez. De uma tacada só, três aparelhos chegaram pela entrega da (péssima) Americanas.com.

Como o pai não pode pegar peso, coube a mim e ao Alan subir com eles e pôr no lugar dos antigos. Foi então que percebi o quanto a humanidade evoluiu. Porque trazer os eletros novos foi fácil, me senti o Huck Hogan. Mas descer com os outros... Sinceramente, quem diz que pra baixo todo santo ajuda nunca teve que carregar um ar-condicionado antigo. Eles pesam mais que a Preta Gil, certeza que eram projetados como método moderno de tortura. Porque ninguém consegue levar o trambolho no braço numa boa. Às vezes, pra ser sincero, parecia que eu e meu irmão éramos pouco. As peças de plástico dos novos, que pai e mãe tanto reclamam que "são vagabundas, vão fazer o troço durar pouco" etc têm exatamente a mesma serventia das feitas de metal, perfeitas pra quem sente aquela incontrolável necessidade de uma vacina antitetânica.

Ou seja, o homem precisou de décadas pra perceber que não é a maldita parte externa que faz dos eletrodomésticos bons aparelhos, mas sim a interna. Gastamos recursos à toa. E ainda damos trabalhos pra filhos legais que pretendem poupar a saúde dos pais, ainda que isso signifique um projeto de hérnia de disco antes dos 40 anos.
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Ahan. O "sexy e plagiado selo Procel". Faltou dizer que, das três novidades papáticas (palavra que significa "do pai" - sim, sou um natoneologista), a única que não tomou lugar foi a do meu quarto. Como sempre. Um, porque é o único que fica no alto e isso dificulta a troca. Dois, porque qualquer coisa que dificulte o que quer que seja vira assunto pra depois, aqui em casa. Vulgo rodei.

Enquanto o ar fica no chão do cafofo me olhando com um irritante ar de deboche, sou obrigado a encarar o selo do Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica. Um smiley dividido ao meio, o que responde à parte do plágio. Com a metade esquerda dormindo sorridente, como se estivesse no meio de um sonho erótico.

Pelo menos esse ar-condicionado vai poupar energia. Afinal, eu sei que ele não vai ser trocado tão cedo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ritmo de festa

Voltar ao trabalho depois de apenas um mês no Brasil é excelente. Entrar de cara numa agência multinacional é exatamente o que eu queria, pelos planos que tenho pra minha vida - refeitos nos últimos meses e já bem assimilados. Mas o melhor é que tenho saído cedo diariamente.

NOT!

Em uma semana e meia, um sábado inteiro e uma manhã inteira de sábado trabalhando. Uma reunião até às 23h de uma sexta, outra até 0h de uma segunda, mais duas reuniões no cliente e duas sextas assassinadas sem piedade. Tudo com meu velho conhecido, o tal empreendimento imobiliário.

Não estou reclamando, longe disso. Mas não vejo a hora de voltar aos meus queridos conceitos, ações e demais malemolências extra-construtoras que me trouxeram até aqui. Ainda que, no momento, o aqui seja o sofá da sala dos meus pais, vendo Eagles 17 x 10 49ers.

***

Mas calma, isso ainda não acabou! Preciso comentar duas coisas:

Um, gostei muito de visitar o apê de um casal de amigos. Todo bonitinho, arrumadinho, deu até vontade de casar. E ainda vi o vídeo com meu discurso de "padrinho de honra" e a festa. Maneiríssimo. Uma noite de sábado feliz demais.

Dois, vi Tropa de Elite 2. Admito, não tenho a menor pena dessa galera que mete bala pelas costas e taca fogo em gente tomando tiro - seja bandido, policial ou miliciano. Como diz meu pai, "direitos humanos, só pra seres humanos". Infelizmente, ao mesmo tempo perco as esperanças quando penso que as mudanças do nosso país estão nas mãos de políticos em sua maioria tão criminosos quanto bandidos, policiais e milicianos.

Pra completar a crueldade, as opções pra 31 de outubro (aliás, data tão cruel quanto, no meio do feriadão) são Dilma e Serra. Pela primeira vez na minha vida, estou pensando em justificar o voto.

***

Pra não fechar o texto de forma triste, uma música pra alegrar a segunda-feira de vocês. Um ícone. Um mito. Uma poesia magistralmente representada:


Vai! Vai! Vai! Vai!

domingo, 3 de outubro de 2010

Zico

A primeira e única vez que vi o maior ídolo da história do clube mais querido do mundo jogar foi na sua despedida. Como torcedor grato por suas façanhas e amante de futebol, acompanhei seu sucesso no Japão (onde ganhou uma estátua por tudo o que fez), a criação de um clube com o seu nome (que só não foi mais longe pela politicagem e roubalheira que imperam no país), sua tentativa de auxiliar o Zagallo quando este já estava gagá e queria que as pessoas o engulissem e outros tantos fatos que cito na categoria etc.

Como outros 35 milhões de rubro-negros eu rezei, desejei, esperei e sonhei com o dia em que ele voltaria para o clube que o criou, onde escreveu algumas das páginas mais bonitas da sua vida - e de muita gente. O esperado retorno para excomungar os vermes que proliferam no clube e consomem livremente seus recursos e nossas esperanças. Não seria mais Zico, o craque. Seria Zico, o herói.

Há quatro meses, o sonho se tornou realidade.

Nessa sexta, o sonho morreu.

No dia primeiro de outubro de dois mil e dez, uma nação inteira acordou dentro de um pesadelo. O clima pesado, as acusações absurdas e a artilharia na direção do ídolo surtiu efeito. Zico se desligou do departamento de futebol com palavras que doem tanto nele quanto nos que são flamenguistas de verdade: "morreu no meu coração esse Flamengo de hoje que está representado por essas pessoas".

Falo de coração - doído como o dele - que sinto vergonha do Flamengo. Não do manto sagrado, mas da corja que destrói o clube há décadas. Dos bandidos fantasiados de dirigentes que desrespeitam a instituição. Das torcidas organizadas repletas de marginais que apóiam um cretino aproveitador como esse tal de Capitão Leo, um ser desprezível que deveria estar longe da Gávea. Dos torcedores que têm a audácia de concordar com essa palhaçada e acusam o Zico de pipocar - quando a presidenta (entre milhões de aspas) prefere dar suporte ao seu cabo eleitoral. O tal do Leo. O tal que conseguiu a proeza de ter mais voz que o Galinho de Quintino. Além da vergonha, claro, do bando que veste a camisa sem a menor condição de aguentar seu peso e honrar sua tradição.

Fiquei sinceramente emocionado com a carta de demissão do Zico. Tive a nítida sensação de estar lendo uma carta de suicídio. Que, sem querer, mata outras 34.999.999 de pessoas.

Torço porque o amor é um sentimento irracional. Mas seria mentira se dissesse que amo esse Flamengo.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pescado no Twitter

Champions aren't made in gyms. Champions are made from something they have deep inside them. A desire, a dream, a vision. Muhammad Ali


Voltamos à programação normal.

domingo, 26 de setembro de 2010

Futebol

Eu jogo, vejo, acompanho, discuto, torço, compareço. Mas esse time do Flamengo me dá um desânimo impressionante, a ponto de escrever esse texto antes mesmo de acabar a partida no Parque das Águas, também conhecido como Lagrimão, oficialmente chamado de Engenhão. A casa de bonecas do Botafogo.

Não esperava o hepta em 2010, confesso. Mas uma vaga na Libertadores era sonhável. Na copinha, aceitável. Brigar com o Patético Mineiro pra não descer, inaceitável.

E, enquanto falava com o Alan, as Felipetes fizeram o terceiro. Fim de jogo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pílulas de ódio

Meu lado calmo e pacifista costuma ser substituído por um Alexandre rancoroso e vingativo quando me sinto injustiçado ou traído. Nos últimos seis meses, um punhado de pessoas entrou na minha lista negra. Coisas da vida.

Mas hoje surgiu um novo elemento de ódio extremo. Não sei o que é pior, se a raiva de pessoas próximas ou a que sinto por conhecidos recentes. Mas o fulano desta quinta-feira terá seu revide. Faço questão.

Depois da minha dose diária de ódio, já posso dormir tranqüilo.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Respire


All you touch and all you see is all your life will ever be.

Não me lembro dia, ano ou hora. Sei que foi na Apoteose e que eu estava lá, cantando de olhos fechados, correndo o risco de perder minha carteira. Mas, naquele momento, só pensava em Breathe. Música, porque a respiração é comandada por movimentos involuntários dos músculos.

Os anos passaram, as pessoas passaram, outros eu passaram. E "breathe/breathe in the air/don't be afraid to care" faz ainda mais sentido agora do que no dia em que minha voz fez coro com milhares de outras tão emocionadas quanto a minha.

Tudo o que fiz desde então foi olhar em volta e escolher meu lugar. É verdade que ele vive se mexendo, e às vezes fico mais perdido que gringo no samba ao tentar me equilibrar e encontrar meu espaço calmo e feliz. Bom, não necessariamente calmo. Mas, sem dúvida alguma, feliz.

Não sei aonde vou chegar, nem quem vai estar comigo quando eu estiver lá. Certo é que estarei. E darei a vida mais maravilhosa pra quem tiver sido paciente e presente em todos os momentos. Para essas pessoas, eu devo tudo. Por essas pessoas, eu faço tudo.

E também cheguei à conclusão que preciso ir a outro show tão bom quanto o do Roger Waters. O que vai ser muito, mas muito difícil.

domingo, 19 de setembro de 2010

Um domingo desses

Você olha no calendário e percebe que passou daquele dia que não se lembra mais. Já está na hora de levantar, e pra isso é preciso passar por debaixo da escada. Três passos à frente, um gato preto muda de roupa e tira os pêlos do bigode diante do espelho enquanto prepara um café com leite. Forte. Muito café.

No corredor há uma passagem que leva ao universo paralelo da sua mente, que está aberta a novas possibilidades mas cobra pedágio. Não custa tanto, mas você está com pouca grana. Resolve vender um pouco de tempo pra se capitalizar, mas tempo nem sempre é dinheiro. Às vezes, uma boa história toma tempo e vale muito mais. Ou menos. Isso, mais ou menos.

Olhando por trás das lentes do monóculo, existem oito pares de olhos vermelhos e famintos. Quem tem fome tem pressa, e você decide correr. Com, contra, para, ainda não sabe. Nem se importa. As portas passam muito rápido, e vão se fechando conforme janelas se abrem. Algumas oferecem uma nova brisa, outras tentam acertar sua cabeça enquanto acelera o passo. Tudo é muito nada nesse conjunto de possibilidades solitárias.

Você se sente sozinho. Você se senta sozinho. Logo começam a aparecer pessoas à sua volta, vozes distantes que fazem eco aos seus pensamentos. Quem traz é o vento, ou o garçom. Elas vêm do fundo do copo metade cheio ou metade vazio. Melhor ver sempre metade cheio.

Daí se enche e resolve começar tudo de novo. Olha no calendário e percebe que passou daquele dia que não se lembra mais. Mas você já está de pé.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

13 de setembro

Um dia que já passou. Como as coisas mudam.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pecado capital número 5

Dante disse, algum tempo atrás (bem antes de eu nascer), que a ira é o "amor pela justiça pervertido a vingança e ressentimento". Concordo. Assim me sinto uma pessoa mais justa enquanto odeio outras.

Eu odeio amigos. Ou melhor, atuais semi-futuros ex-amigos. Quem mente, esconde, toma partido e ajuda você a se afundar na má fase não pode ser considerado amigo(a).

Eu odeio políticos. Com a sempre exclusão do Chico Alencar desse grupo, por gosto e confiança. Eles mentem, compram votos e fingem que não se importam com a meleca que a criança colou na camisa deles.

Eu odeio juízes de futebol. Esse tópico entrou porque escrevo o texto enquanto vejo o Flamengo ser prejudicado por um saco de batata vestido de preto. Jogador expulso, pênalti não marcado etc. Até quando o cretino do Ricardo Teixeira vai fazer isso? Tá de birrinha porque o Flamengo não votou na sua eleição ou é retaliação pela discussão da taça das bolinhas? Porque eu tenho uma sugestão do que você pode fazer com ela, e só não sugiro ao São Paulo porque eles aceitariam. Se é que já não pensaram nisso.

Eu odeio o time do Flamengo. E tenho pena do Zico, que está arriscando anos de história pelo amor a um clube que parece não querer ser ajudado. De quebra, também tenho pena do Silas, que não podia recusar a batata quente que caiu na sua vida tática.

Eu odeio despedidas. Cada vez que vou embora de algum lugar, fico triste e sofro como se fosse a um show do Jorge Vacilo. Sozinho. Em Inhaúma. Numa terça-feira chuvosa. De ônibus. Mas, como nesse caso eu deveria me odiar - já que a culpa das despedidas é minha - eu relevo um pouco e penso no lado positivo da saudade e boas recordações.

Eu sei, a ira não resolve minha vida. Mas não acredito em pecado, céu e inferno, essas coisas de quem tinha tabela de preços pra pedaços de madeira e tem um nazista anti-camisinha como líder. Além do mais, como vivo de escrever e gosto de valorizar cada reação apaixonada que sinto, até que uma raiva contida sempre prestes a explodir no momento inoportuno é legal.

E ainda tem aquele lance que gosto muito, a tal da vingança. Se você estiver na minha lista, cuidado.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Re(rerererere)começo

Quem disse que eu tô rindo? Isso é uma forma onomatopeica de representar outro combo de mudanças na minha vida, que começou no dia em que decidi ir pra Barna. Um ciclo que ainda não tem data pra fechar, e segue dando voltas interessantes.

As próximas semanas prometem fortes emoções. Além de uns quantos recomeços. E a verdade é que eu tô curtindo muito isso.

O que pede um Bajofondo.


Tiempo mejor, cielo de miel, ahora que sale el sol...y empieza a calentar la piel.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Até logo, Mário Filho

Mário Filho era filho do Mário. Não aquele da piada, ou pelo menos eu acho que não. Na vida passada, jornalista. Nessa, estádio. O maior do mundo até algum tempo atrás. O mais charmoso. O com mais histórias, algumas tristes e muitas felizes. Casa do todo-poderoso Mengão, dono do recorde de público do Campeonato Brasileiro com mais de 155 mil pagantes em um Flamengo e Santos, final, taça nossa, grito de tricampeão.

Quem já foi ao Maraca alguma vez na vida sabe o sufoco que é (era) comprar ingresso, com uma horda de cambistas passando a frente e oferecendo o lugar 247 vezes mais caro no dia do jogo. Assim como é (era) horrível entrar numa fila que parecia o delta do Nilo até chegar perto da roleta, pra então virar um buraco de agulha na hora de entrar na área do estádio.

Quem já foi ao Maraca alguma vez na vida também comprou cerveja cara lá dentro, e depois passou a não poder comprar cerveja nem nos arredores. Legalmente, porque o amigo isopor sempre chamava na espreita. Com certeza, passou pelo perrengue de ficar num lugar ruim, sentar na escada, ter que vigiar o bolso enquanto xingava o juiz, viu a menininha tomar um copão de xixi na nuca, saltou degraus com mais técnica que o João do Pulo - só que pra fugir de confusão.

E quem foi ao Maraca sabe-se lá quantas vezes, como eu, entende que a emoção de cantar com a torcida (no meu caso, com a Raça e a Fla-Manguaça, desde a época do Marcelo Tijolo ou antes, nem me lembro mais) é maior e mais forte que qualquer um desses contratempos.

Vi o Flamengo vencer inúmeras vezes, ser eliminado de forma dolorosa, jogar com raça e ser vaiado pela falta dela. Não importa. Poucas coisas nesse mundo são tão emocionantes quanto ver o manto sagrado saindo do túnel, os jogadores pisando no gramado e acenando pra torcida enlouquecida. Independentemente do resultado. O Maracanã é lindo, místico, insubstituível.

Mas não irretocável. Hoje foi o último jogo no templo, que será fechado por mais de dois anos pra obras. E eu não pude me despedir. Tudo bem, o Flamengo empatou com o Santos - mesmo jogando melhor. Não foi o até breve que os milhares de presentes esperavam. Mas tenho certeza que foi emocionante, principalmente pra quem ama o time e o esporte. Como eu. Que estava na frente da TV com cabeça, coração e cordas vocais no anel superior, atrás do gol do lado esquerdo da tribuna de honra. Triste por não estar fisicamente. Mas feliz de ver a galera incentivando até o final, numa clara história de amor eterno.

Não conheci o jornalista, mas tenho certeza de que é muito feliz como o estádio. E por fazer parte dessa história.

Até logo, Mário Filho.


Acima de tudo, rubro-negro!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A baleia jubarte

Com seu vermelho característico, ainda que raro para a espécie, lá estava a Jubarte olhando o mundo à sua volta. Muitas coisas com carinho, outras com saudosismo, uma com certa raiva. Sim, porque as jubartes, como qualquer mamífero, sentem raiva.

Ela sabia que estava ameaçada de extinção. Ainda assim, resolveu seguir na imensidão do oceano, acreditando que a época de migração logo chegaria ao fim e ela estaria de volta, sã e salva, ao seu amado habitat. Horas e dias e meses de viagem, muito plâncton comido, muito vivido pelos mares para contar aos seus filhotes. Uma existência só existe realmente se há histórias, pensava. Mas se esqueceu de que nem todas são boas.

Assim como as pessoas. O ser humano interessado na preservação da jubarte, por exemplo, era mau. Escondia seu lado desequilibrado sob um risonho rótulo ambientalista. E se aproveitou da crença mamífera da baleia para fazer o que quis enquanto ela estava fora. Protegeu outras espécies, militou por outros animais. Tão irracionais como este ser humano específico. E a pobre jubarte, após nadar aquela imensa massa de água até sua terra natal e se deparar com tamanha irresponsabilidade, sentiu um oceano inteiro pesando nas suas costas. Na sua vida.

Felizmente, como todo mamífero racional e emocional, a jubarte tem seus truques. Emergir, expelir a água salgada e seguir em frente, por exemplo. Ela sabe que, olhando aquele mundo à sua volta, um pequeno ser (ou seria um ser pequeno?) que um dia cruzou sua corrente marítima não fará a menor diferença em uma vida livre e feliz, e por isso plena. Coisa que aquele pobre peixe de aquário nunca vai entender ou alcançar.