sábado, 14 de agosto de 2010

Añoranza

Dizem que a palavra saudade só existe em português. Em galego também, mas não importa. Certo é que os espanhóis têm uma palavra equivalente: añoranza. Exatamente o que sinto agora, relembrando que acabo de me despedir do Alan e só vou vê-lo daqui a 12 dias. Junto com meus pais, o Corcovado, o Redentor, que lindo, e tudo aquilo que deixei há quase 11 meses.

Mas minha añoranza também já se manifesta para as coisas que vou deixar na Europa: amigos, cidade, apartamento, ruas, restaurantes, discotecas, Spotify, catalão e castellano, jogos do Barça, metrô que funciona, Bicing, vôos baratos e tantas outras coisas que poderia passar o dia listando mas me fariam mais triste que outra coisa. Porque, por mais que eu aproveite, sempre acho que daria pra ter feito mais. E não é hora de olhar pra trás.

Nunca foi, na verdade. Mas chegou o momento de construir minha vida, montar minha família, ajudar a quem precisa, tocar projetos paralelos. Ser e ter o que sempre busquei. E, pra isso, é preciso tirar pa' lante.

Sei que a vida não é uma linha reta; minha trajetória vive me mostrando isso caso a memória falhe. Mas todos temos um ponto de chegada (além do cemitério, ou no meu caso doação de órgãos e crematório pro que sobrar), e fazendo nossa parte chegamos lá. Ou ali, pois quero estar o quanto antes.

Discordei de várias pessoas pra vir, discordo de várias pessoas pra voltar. Perdi ou me tiraram certezas intocáveis, sofri porque quis ou porque quiseram, tenho que recomeçar - de novo. Mas podem ter certeza: faria tudo outra vez.

As coisas são como têm que ser. Inclusive a añoranza.


Who says I can't restart?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Peça pelo número

Viajando durante minha última viagem, esperando minha tradutora pedir meu McAlgo no drive-thru de Lille, pensei meu Deus, que bosta é o McDonald's, será que eles nunca vão inventar algo realmente novo?

Como sou um cara legal e desprendido de bens materiais - além de não ter a menor vontade de trabalhar no McMarketing, resolvi deixar umas dicas pra eles. Quem tiver um contato lá dentro que repasse, à vontade.

McChicano
Um sanduíche para agradar a todos os amantes da gastronomia mexicana, além da enorme comunidade que tenta a sorte pulando o muro - no bom sentido, do México para os EUA. Inclusive, poderiam pôr um posto avançado na fronteira entre os dois países. Assim, eles teriam contato com a cultura (sic) estadounidense sem sair da sua terra. Que, provavelmente, é muito mais divertida.

Fora que isso faria a imensa comunidade mexicana no exterior feliz da vida. Só aqui em Barcelona, a rede faturaria milhões a mais por ano. E ainda seria politicamente correta. Afinal, já que os mexicanos cozinham, ao menos que seja uma comida conhecida.

Número: 70
Cardápio: pão moreno, carne moída, quesadilla, feijão, guacamole, mexixiquilitl, milho e chilli.










Isso, isso, isso, isso, isso!


McChino
A China é o país mais populoso do mundo, o que mais cresce, o que vive desbancando antigas economias e se consolidando como nova potência mundial... e não tem um mísero McMenu? Além de injusto, isso é uma grande burrice marqueteira. A rede poderia ganhar rios amarelos de dinheiro, e se posicionar como um grupo aberto a todo tipo de cultura. Seguro que aqueles olhinhos puxados ficariam tão grandes quanto os dos mangás japos ao ver McCoisas em sua terra.

Número: 49
Cardápio: pão pequeno, carne de cachorro, arroz, amendoim, shoyo, gengibre e açúcar.












E eu comendo perereca!

McGyver
Mais que um sanduíche, um estilo de vida. Mais que uma homenagem, uma forma de incentivar o DIY way of life - o clássico se vira, neguiam! Mais que MacGyver ou McDonald's, McGyver.

Número: x
Cardápio: canivete suíço.
Menu light: clip, chiclete e caneta.












Isso que eu tô enrolando? É... um sanduíche... em forma de charuto... receita da vovó.


Quando você estiver comendo algum desses menus, não se esqueça de comentar em voz alta que conhece o inventor dos quitutes.

domingo, 8 de agosto de 2010

Cabeça

A minha é rara, eu sei. Lembranças vêm às vezes, a armazenagem de dados mal funciona e, ainda assim, sempre tem alguma coisa que volta à tona em horas inoportunas. A de hoje, pelo menos, trouxe junto um som legal. Triste, mas lindo. Verdadeiro. De um filmaço.


Everybody's gotta learn sometimes. Ou não.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Silêncio, ou "um daqueles textos auto-censurados"

A não ser que vocês leiam meus textos em voz alta, o que seria um pouco estranho, a Ponte é um exemplo de silêncio. Como sua professora deve ter ensinado no primário, um blog é pra se fazer leitura silenciosa.

Silêncio, às vezes, é bom. Acalma e ajuda a escutar as vozes dentro da sua cabeça. Nada a ver com esquizofrenia, mas com consciência. Momentos sem ouvir gente tagarelando no seu ouvido também são bons pra perceber que nem sempre outras pessoas opiniões são bem-vindas.

Infelizmente, o silêncio tem seu lado ruim. Aquela história de que "quem cala, consente". Ou a impressão de descaso, desprezo, ignorância. Silêncios desse tipo são muito prejudiciais. Fazem você notar coisas sopradas dentro da sua orelha que passariam despercebidas caso algumas pessoas marcassem presença ao seu lado.

Acabo de ver Carne trêmula, que por algum motivo me lembrou Lua de fel. Não sei o que me levou a escrever esse texto. Talvez, o tesão dos seus personagens em dizer/ouvir coisas que machucam, ou experimentar o sofrimento para se redimir de possíveis culpas. Exatamente o oposto do que acredito e quero pra mim. Por todas essas coisas, renuncio oficialmente à pressão mental que cedo ou tarde me levaria a um derrame sentimental. Vou tentar, pelo menos. Mas com vontade real de mudar.

Se é pra ser assim, assim será.


Outras músicas também serviriam, mas me duele que no estés y tú te vas. Sendo que não espero nada.

domingo, 25 de julho de 2010

Vida que segue

Ainda em viagem e ainda viajando, vejo quanta coisa está mudando. Ou já mudada. Ou ainda por mudar. Boas memórias por um lado, sentimentos tristes por outro. Chato ver que gente que eu gostava tanto está contribuindo pra isso.

Às vezes, compensa deixar certas coisas de lado. Enfim, vida que segue.

domingo, 18 de julho de 2010

Lucky bastard!

Sábado, 10 de julho: Alan chega em Barna, e viro minha segunda noite seguida. Domingo, 11: vemos a Espanha ser campeã do mundo e comemoramos como (e com) locais. Segunda, 12: Londres. Um dos lugares mais legais do mundo.

Ah, lá vem o Alexandre falar que cidade tal é legal, que gostaria de morar lá blablabla. Não, ainda que um sim bata à porta. Com zilhões de motivos.

Londres é realmente cosmopolita - não estou falando de ver um par de turistas alemães no mercado ou escutar japonês em um restaurante, e sim de um sheik manda-chuva da Al-Jazeera sentar ao seu lado numa poltrona de loja de departamento e puxar assunto. De vietcongues, indianos e árabes com um inglês perfeito e trabalhando de verdade (não vendendo cerveja numa esquina suja e fugindo da polícia). De ver estrangeiros morando na cidade e não passando uns dias torrando grana em caipirinha e turismo sexual.

Londres tem absolutamente tudo - saindo do hostel em Kensington você tem restaurante árabe de verdade, mercado onde é possível comprar comida pra duas pessoas que dura a noite de quinta e sobra pro café de sexta a menos de 6 libras, uma livraria interessantíssima (pra não dizerem que tô mentindo, olha esse e esse livro que comprei por menos de 5 libras cada) etc. Você quer produtos naturais? Tem. Ah, prefere comprar coisas únicas e ajudar uma criancinha com remela do terceiro mundo? Beleza. E mais etc. A lista parece infinita, paro por aqui e ya está.

Londres dá milhões de opções de diversão - além de trombar com uma galera bebendo civilizadamente suas pintas de Guinness às 19h dentro de pubs e nas janelinhas do lado de fora deles, você encontra tantas opções pra se divertir que é capaz de rodar a cidade a noite inteira sem se decidir. Mas nos decidimos por um restaurante/pub com entrada a 4 libras e jam session de blues aberta ao público. Quando você entra, perguntam se quer tocar ou só assistir. Ainda bem que fiquei com o "só assistir", porque a galera era animal. O som saía lindo. A música era sempre de qualidade. E tudo era cantado com sotaque inglês, o que dá um charme especial. Ah, sim: o lugar era desses que se posiciona como "amigo do meio ambiente", até a cerveja era diferente. Orgânica. Freedom. Muito boa.

Fora Camden Town, que dispensa comentários. Um dos lugares mais ecléticos, divertidos e interessantes que já vi na minha vida.

Londres respira cultura - Dalíescultura Maorivan Eyck ao lado de Van Gogh - grátis? Peça de Shakespeare diariamente e custando míseras 5 libras? Discussões políticas que servem pra alguma coisa? Nem sei tudo que poderia escrever, mas isso e muito mais que vocês pensarem, encontram lá. Se um fica em casa, é por preguiça.

Lá, os aluguéis são caros. Mas, imagino que ganhando ao menos 5 mil libras (e se não meterem a mão no seu salário como na Espanha ou França), seja possível viver muito bem. Inclusive, com um apê num lugar legal. Como o metrô chega na porta da sua casa (às vezes, literalmente) e todos se respeitam no trânsito, o que permite andar de bici pra lá e pra cá, uma temporada na cidade deve permitir uma vida excelente. Inclusive quando sair de férias, já que a moeda deles vale mais que as outras. E, com todo meu respeito ao tio Frank, se você pode ser bem-sucedido , então você pode ser bem-sucedido em qualquer lugar do mundo.


"New Yokr, New York", oscambau! I want to be a part of it, London, London.

Mas outra coisa precisa ser dita. Os brasileiros têm um problema com vir pro exterior, um preconceito que só vai morrer o dia em que a maioria da população puder morar fora (ou seja, daqui a três eternidades). Quando só vêm de turismo, acham que toda a Europa é um grande parque de diversões, uma bagunça/pegação/festas infinitas - e não existe isso. Morar fora é como morar no Brasil: segurar a grana, passar por coisas chatas, conhecer gente interessante e gente escrota, e perceber - ao menos em teoria - que toda cidade funciona igual. A não ser que você seja barman em Ibiza ou Mikonos (e esse seja seu objetivo de vida), sua vida vai ser como aí. Inclusive, conhecendo mais brasileiros do que gostaria.

Nós somos uma praga; se o mundo for destruído por bombas atômicas, só as baratas e nós sairemos dos bueiros pra repovoar o mundo. Espero que não cruzando as espécies.

***
Em todo caso, queridos amigos, relaxem suas cabecinhas que o Alê ainda não perdeu o juízo nem (toda) a memória. Disse que volto pro Brasil e mantenho minha palavra. É hora de resolver minha vida, montar minha casa, daqui a mais um pouco ter minha família, além de ajudar a quem precisa, o país a se desenvolver e tantas outras utopias que só eu acredito que sejam possíveis.

Mas que Londres é uma cidade tentadora, isso é...

***
Ah, claro. Uma das vantagens de estar com a (e na) Espanha nesse mundial da África do Sul é que usar a camisa da seleção te habilita automaticamente a ser uma pessoa querida. No caso do tio que me chamou de lucky bastard na saída de uma loja qualquer, rolou uma pontinha de inveja, também. Mas nada que gritos de España e yo soy español, español, español em museus e pelas ruas não apaguem.

Por esses dias, a Espanha é o Brasil da Europa. Só que em crise.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Deus...

Vaya finde! (já voltaremos com a programação normal)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Podemos!

Ontem foi um dia histórico para cerca de 46 milhões de pessoas no velho continente e outras tantas espalhados pelo planeta. Após dezoito edições de um mundial, a Espanha finalmente chegou a uma final de Copa. Só a fila do SUS demora tanto - com a diferença que as pessoas têm muito mais esperança de levantarem uma taça que de serem atendidas.

Revendo pela milionésima vez os lances da partida contra a Alemanha, surpresa e sensação do campeonato pela equipe renovada e futebol bonito, responsável por despachar hooligans e argentinos (desculpem a palavra de baixo calão, não conheço outra menos pior), ficou ainda mais claro o domínio da Fúria. Sim, eles mereceram ganhar, assim como mereceram bater os mesmos alemães na final da Eurocopa dois anos antes. Como merecem deixar o estigma de segunda força pra trás, sendo considerados grandes, vitoriosos e tendo o nome gravado na história.

Mas não escrevo esse texto pra elogiar La Roja e a habilidade dos seus jogadores ou bater no Dunga (o Felipe Melo viria dar o troco, com certeza). Escrevo porque, vendo as imagens dos jogadores e dos espanhóis comemorando, gritando e chorando e perdendo a voz e se jogando em chafariz e buzinando e se abraçando e com olhar perdido em direção ao céu, me emocionei. Chorei, pra ser sincero.

Chorei pela dedicação, entrega e identificação dos jogadores - não apenas com a camisa vermelha ou o esporte, mas com toda uma nação. Algo que vai muito além da nossa pátria de chuteiras que "é brasileira com muito orgulho, com muito amor" durante um mês e caga o país nos outros 47. Uma nação que tem disputas internas inclusive sobre o conceito de nação, e que enxerga no futebol a possibilidade de fugir um pouco da disputa política sem sentido e, quem sabe?, da união entre as províncias.

Chorei por ver a comoção de um povo que espera isso desde sempre. Que já foi taxado de perdedor, amarelão e até botafoguense. Que viu sua equipe nadar forte tantas vezes e morrer na praia. Que vê no sucesso da seleção o início da virada pra sair de uma crise que parece eterna. Gente sentindo uma emoção que nunca experimentou na vida e, por isso mesmo, vive como um sonho que pode acabar a qualquer momento. Que tem medo de se beliscar e acordar.

Chorei porque gosto do esporte. Chorei como devem ter chorado os que (ou)viram o título de 1958, depois de chorarem pelo Maracanazo. Como devem ter chorado os que viram a eliminação de um dos melhores times da história do futebol, aqui na Espanha mesmo, contra uma equipe chulé que deu início ao futebol de resultados. Como se fosse o hexa do Flamengo, com um único amigo testemunhando meu sofrimento e êxtase numa sala semi-vazia em El Prat de Llobregat, Barcelona, Espanha.

Chorei por tudo que deixei no Brasil, coisas que preciso retomar e coisas que se encaminham para um fim. Ou recomeço, nunca se sabe.

Chorei por saber que os planos traçados há tanto tempo estão se cumprindo. E, depois de 10 meses, estarei ao lado do Alan vendo a Espanha jogar a final em algum lugar de Barcelona. Exatamente como deveria ser. "Saudade até que é bom" oscambau. Quero rever meu irmão, meu grande amigo. Quero a família junta outra vez.

Chorei porque, ainda que não seja de muitas lágrimas (quase nenhuma, pra ser sincero), homem chora, sim. E admite.

E, tão importante quanto tudo isso: chorei, sim. Mas não como um botafoguense.

Sigo acreditando no slogan dos espanhóis, que resume bem o sonho de uma vida. Seja qual for o sonho, e seja de quem for a vida: podemos!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ditadura da razão

Pela segunda vez, a cabeça censura o estado emocional. Não sei até quando isso vai durar. Sei que, se postar os textos, provavelmente vou reler e ficar contente com o que escrevi. E triste de ver que eles ainda farão sentido.

Mas "assim que quer, assim será".

domingo, 4 de julho de 2010

Sepakta quê?

Se alguém puder me explicar como pessoas que jogam um esporte que mistura futivôlei, balé e caratê não vai bem no futebol, por favor deixe um comentário e esclareça minha limitada mente.

Pra ajudar (ou não), deixo uma amostra de como funciona o negócio:


ชาย, บ้า!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

El Niño

Depois de escutar esse som, saído de um post do Alan (obrigado), resolvi deixar a música passear pela Ponte outra vez. Infelizmente, com poucas referências - estavam com preguiça de escrever no Wikipedia, assim como estou de procurar mais informações. Mas com altíssima qualidade.

Talvez pela contagem regressiva seguir forte, levando meus pensamentos rumo aos risonhos lindos campos (que) têm mais flores, a nostalgia começou a marcar presença. Dessa vez, juntando as lembranças de Sevilla, talvez bem vivas pelo reencontro em Madrid com dois grandes amigos, com as de Barcelona. Minha casa de temperatura desregulada por longos-curtos-longos nove meses. E o niño que nasceu dessa espera tem 36 anos.

Niño Josele é um guitarrista flamenco nascido em Almeria, e tão caveira que já tocou com nomes como Paco de Lucía e Elton John. Tem 7 discos em 14 anos de carreira, o que não é pouco. Ainda mais pensando que sua criação é instrumental, não essa história de "vou te levar daqui/te amo, meu amor/eu quero vocêêêêêêê" de qualquer desses cretinos de hoje em dia, daí ou do exterior. O cara é boladón.

Descobri pelo Alberto num programa da Rádio 3. Pus no Spotify e não consigo parar de escutar. Quer dizer, neste exato momento eu não escuto, mas só porque meu computador está incrivelmente lento e não consegue fazer duas ações ao mesmo tempo, como um surfista tentando amarrar o cadarço e falar.

Ao toque de quatro já vai:


Ei, fala de mim também!
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Falando em niño, el niño Torres, Fernandinho no Brasil, Seaside Freddy pros gringos, segue jogando bichado e sem render. Mas Villa Maravilla assumiu a responsabilidade e está compensando a falta que o outro faz resolvendo praticamente todas as partidas para a Espanha no Mundial. Com isso, la Roja já está nas quartas, sendo a única que acredito ter alguma chance de estragar a Copa América africana. Basta chutar o Paraguai.

Só pra constar.
***
Só pra constar, também: esse foi, provavelmente, o texto com o maior número de links que já escrevi. Alguns são interessantes, poucos realmente engraçados, muitos totalmente sem sentido. Ainda assim, tive o trabalho de selecionar cada um deles.

Favor clicar em todos e gerar tráfego para outros sites, a ver se vêem que vocês chegaram lá atravessando a Ponte, vêm aqui e aumentam meu número de visitas, permitindo a inserção de banners e links patrocinados e me dando dinheiro.

Obrigado.

Metade homem, metade máquina

Sigo com insônia. Não sei até que ponto isso é ruim, já que meus sonhos têm sido inquietantes e/ou semi-tristes. A culpa não é minha, claro. Um não manda no que seu subconsciente joga no ventilador enquanto a cabeça escuta o travesseiro.

Não tem chá, comida leve ou tentativa de limpeza mental que me tire desse círculo vicioso. Já pensei até em remédios, mas como não sei o que comprar sigo acordado. Como uma máquina. De café, por que não?

Taí. Se eu fosse um herói moderno, seria uma espécie de Iron Man Nespresso. Um Gambit cafeinado, atirando potes de Ristretto e Volluto em qualquer um que ousasse me desafiar e ir pra cama antes das quatro da manhã.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Brasil 2x0 Espanha

Quarta passada rolou o São João catalão. Noite de festa, em que todos aproveitam o feriado do dia seguinte para passar horas na praia. Muitas, já que é o dia mais largo do ano - de sol, digo - e muita gente vai ficando até começarem as festividades.

Pauda para explicação científica: eixo de inclinação da Terra, rotação/translação, hemisfério norte... Busquem coisas sobre o tema se quiserem comprovar que existe realmente um dia mais largo no ano. Assim como o mais curto, se não me engano 25 de dezembro.

Voltando: que festividades? Quer dizer que em Barcelona rola quadrilha, bigodinho pintado, pula fogueira ia-iá, canjica e namorinho atrás da igreja (pra quem é caipira de verdade; não imagino ninguém de pegação atrás da Catedral do Niemeyer)?

Honestamente, um lugar onde se comemora o carnaval com uma fila enorme de gente com roupas típicas (também conhecidas como esquisitas) e dois carros de som disputando a atenção de gente sacudindo os braços na beira da rua não poderia ter muita vocação pra fazer uma festa de São João da boa. Nem mesmo da boa. O esquema de São João deles é fácil de explicar, ainda que impossível de entender: a galera se arruma, vai pra praia e leva (muito) álcool e fogos. Enche a cara, atira fogos em todas as direções - inclusive na sua - e volta pra casa bêbada.

As fogueiras, caso você encontre uma, são feitas com móveis usados. Música, só em quiosques específicos nas praias mais afastadas. Nas de Barceloneta, a mais próxima da galera, é só bebedeira-morteiro na cara, mesmo. Os grupos se fecham entre eles, não são de interagir com outras pessoas. A não ser que estejam bêbados, mas aí só conversam enquanto não sentam na areia ou enchem o saco do papo. O que tarda pouco, porque ele não costuma ser dos mais interessantes.

As horas passam, quem está no quiosque com música se sacode sem muitas pretensões, quem está sem som procura paquis pra comprar ainda mais cerveja (aqui é proibido beber na rua, daí quando a polícia chega eles escondem as latas, normalmente dentro dos bueiros - só pra constar), e quando você percebe que a festa é basicamente isso, caso esteja em condições de perceber alguma coisa, enjoa e vai pra casa. Fim.

Acho que o dia seguinte é feriado pra todo mundo curar a ressaca, porque nenhuma cidade funciona com 85% da população economicamente ativa sem agüentar claridade por mais de 5 minutos. Mas, pelo visto, caso fossem trabalhar os gringos também não teriam muitas histórias pra contar, de qualquer jeito.
***
A nota triste da noite ficou por conta de um acidente em Castelldefels, uma cidade cerca de Barcelona, em que 13 pessoas (se não me falha a memória) morreram e mais umas quantas ficaram feridas ao serem atropeladas por um trem a 140km/h. Acontece que essa gente estava cruzando a via da estação. À noite. Passando por trás do trem que estava parado na plataforma.

Sigo com minha teoria de que, se burrice fosse crime inafiançável, evitaríamos muitos problemas no mundo.
***
Voltando pra pátria amada, Brasil, essa é a segunda festa da qual não sentirei falta nenhuma. Assim como do carnaval, apesar de isso ser tão óbvio quanto o problema do Dunga com seres humanos. Brasil dois a zero na Espanha.

Se as duas se cruzarem nas oitavas, é melhor eles se cuidarem. Até porque, se minha torcida segue sendo pra Roja levantar o caneco, meu coração ainda é flamenguista, carioca e brasileiro. Acima de tudo, rubro-negro.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Parabéns per tothom

No aniversário do amigo, quem ganha o presente é... bem, ninguém. Em todo o caso, parabéns, sinhô Serpa-chefe-de-seção. Parabéns também Dioguinho, que tenho certeza absoluta que não lê a Ponte mas merece a homenagem de qualquer forma.

E nessa mistura de português com catalão, lembro que minha contagem regressiva acaba de chegar aos supimpas 64 dias.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dunga e a seleção dele

Desde bem antes da Copa, eu dizia que não gostava do Dunga nem da seleção que ele convocava. Avisei que estaria torcendo pra Espanha levar a taça, e mantenho (apesar de estar difícil; a verdade é que eles parecem sentir a pressão de um Mundial e do oba-oba que a imprensa faz por aqui, culminando no cada vez menos confiante - e confiável - slogan "podemos"). Admito que é impossível torcer contra o Brasil, e a cada jogo eu estou na frente de um telão, gritando e pulando e esperando algo mais do que tem sido feito em campo. O que não deve acontecer, pela falta de qualidade técnica do time.

Mas o que mais me surpreendeu até agora não foram as vitórias sofridas em cima da poderosa Coréia do Norte ou da organizada Costa do Marfim, nem mesmo a cara de peidei mas foi você do "treinador" na beira do campo. O que me surpreendeu foi a ignorância excessiva - até mesmo pros seus padrões - com os repórteres da coletiva pós-partida (escolhendo logo o Alex Escobar, repórter inteligente, competente e tranqüilo). Xingamentos que começaram ainda em campo, com um juiz que expulsou o Kaká (que não é assim, um santo) por um cotovelo suspeito (lembrando que ele levou amarelo, normal pra jogada; só que era o segundo) e validou o golaço do Luis Fabiano em jogada digna de Tande. O novo dupla do Henry na praia.

A gente sempre fala que nossa seleção tem 190 milhões de técnicos, que o time é patrimônio nacional. Assim como a imagem que construímos ao longo da história das Copas, com cinco títulos (o mais feio e indigno deles, não coincidentemente, com o Dunga em campo) e times que não ganharam mas encantaram (como o Brasil de 1982).

O Dunga simplesmente não está preparado para o cargo. Nunca esteve. Ganhar é fácil, até mesmo pra ele. Um, pelos jogadores que temos. Dois, porque ainda que não chame os melhores, o futebol mundial está nivelado por baixo, tão por baixo que daqui a pouco vamos começar a construir campos em estações de metrô abandonadas.

Ele não agüenta críticas, não suporta pressões, não admite ser contestado. Ainda que eu não confie 100% na imprensa (50%, talvez), ela é uma espécie de porta-voz da população. Quando pergunta algo, em teoria, está perguntando o que você, eu ou sua avó gostaríamos de saber.

Alguém que não admite ser contestado não pode ocupar o posto mais sujeito à críticas do país. O Lula pode cagar uma lei ou não dar aumento de salário a ninguém, mas se o Brasil perde pra Argentina ele vai ser nota de rodapé da página 15. E um argentino pulando na frente do Lúcio será capa. Erro de valores, sim. Mas não justifica uma pessoa estressadinha com alguém que fale algo que não gosta. Ou que tenha a audácia de balançar a cabeça.

Justificar as atitudes do Dunga é aceitar uma parte péssima do nosso povo. Concordar com os ataques de "masculinidade" dele é admitir que somos mulher de malandro, uma gente que gosta de apanhar. Que abaixa a cabeça pra qualquer imbecil considerado vitorioso no nosso país - inclusive pela mesma imprensa que ele agora bate, merecendo ou não. No caso dele, sinceramente, não.

É por essas e outras que sigo afirmando que a seleção é do Dunga, não minha. E que, ainda que vista a camisa e incentive o time até o último segundo, torço pela Espanha. Entre o sofrimento de uma nação e a consagração de brutamontes como Dunga ou Felipe Melo, fico com o sacrifício.

É isso ou transformar a animalidade em modelo para o país que eu amo. Enquanto a isso, não tem gol que me faça mudar de idéia.

domingo, 20 de junho de 2010

Auto-censura

Poucas coisas me irritam tanto quanto ter um filho do qual me orgulho e ser obrigado a deixá-lo trancado num quartinho escuro no quintal - o tal do "rascunhos", do blogger. Também não posso mandá-lo pra mãe, que talvez batesse com a porta na cara do pobre coitado e nem me avisasse da desnecessária rebeldia seletiva.

O jeito é me consolar com o fato de estar fazendo sol e ter jogo do Brasil daqui a algumas horas. Supondo que uma partida do time do Dunga seja capaz de animar alguém.

Aliás, falando em sol, vou voltar menos branco e mais em forma que da outra vez, quando desembarquei no Galeão parecendo um refugiado checheno.

E falando em auto-censura, eu me vi na obrigação de voltar a não divulgar meus planos, atuando nos bastidores e deixando no máximo a família mais próxima a par do que pretendo que aconteça na minha volta. Sim, estou assumindo que vou voltar. Ainda não foi dessa vez que vocês se viram livres de mim.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Toca aqui

Uma das minhas 148 tristezas nessa vida é não ter formação musical. Ainda há tempo pra aprender, eu sei. Mas começar aos 27 anos não é das coisas mais promissoras que podem passar a alguém. Além do mais, meu talento pra artes gráficas é risível - outra das minhas decepções. E não quero ficar só com essa coisa de embaralhar letrinhas.

Se eu tivesse escolhido de moleque, teria optado por estudos clássicos pra saber tocar desde meu violão (que sofre com minha oscilação entre períodos mais inspirados e épocas bizarras) a sax, bateria e baixo. Violino também, pra tirar onda de esnobe misterioso e ter cara de assassino naquelas festas chiques e chatas onde garçom serve canapé com gosto de ações da Vale.

Mas se começasse hoje, ficaria entre essas duas opções:

Oboé sempre foi um instrumento divertido, ao menos pra mim. O nome parece saído de música baiana, o som é meio anasalado e sempre tem mais vagas que candidatos no vestibular. Ou seja, eu poderia ser formado em oboé pela UFRJ sem estudar nada. Além do mais, quantos oboístas você conhece? Fora que é um instrumento surgido provavelmente na Mesopotâmia e com mais de 3000 anos. Dizem que Maria ninou Jesus com um oboé. Está em algum lugar na Bíblia, confere lá e me conta depois.


Theremin, que só poderia ter saído da cabeça de um russo. Patenteado em 1928, parece um receptor de TV a cabo e se toca sem encostar em nada - o thereminista, ou seja lá como se chama quem sabe mexer nessa geringonça, controla a freqüência com uma das mãos e o volume com a outra. Claro, você encontra desde um nerd fã de jogos eletrônicos até um louco pop ensinando como é que se faz ("coloque as duas mãozinhas pra frente, vai, vai, vai, vaaaai..."). Mas a graça seria usar o brinquedinho como o Jimmy Page, em algumas performances de Whole Lotta Love e No Quarter. Psicodelia, aí iria eu.

Bom, enquanto não posso entrar no maravilhoso mundo de formas, sonatas e crescendos, me contento com uma aula grátis de tuba:



Grátis, não. "São 60 dólares."

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mudanças

Os últimos dias foram de longas conversas com pessoas fundamentais e cada vez mais presentes na minha vida. Assim vejo quem realmente importa - e se importa. Gente que (re)aparece na hora certa, que dedica tempo a escutar e falar quando mais preciso, e que não precisa perguntar nada ou ouvir um pedido de atenção.

Minha contagem regressiva bateu 71 dias, e se chocou contra a saudade crescente (ou decrescente, depende de que e a quem me refiro) de tantas coisas que voltam à cabeça. São oito anos de mudanças contínuas com forte tendência a dar espaço a coisas mais certas. Minha mãe disse que me vê mais maduro. Poucas vezes fiquei tão feliz com um elogio.

Nessa busca por mim mesmo e o que será daqui pra frente, pesquisando e vendo referências que me dêem base pra tomar decisões importantes, topei com um vídeo do Playing for Change. A música tem uma levada triste (blues, né?), mas a mensagem é tão bonita quanto verdadeira. Grandpa Elliott e os outros integrantes da banda/projeto são a prova de que mudanças, cedo ou tarde, chegam para todos.

As minhas não param de vir. Por mim, tudo bem.


segunda-feira, 14 de junho de 2010

A nova colonização

Não faz muito tempo, a África estava dividida entre as potências imperialistas mundiais. Havia colônias francesas, inglesas e até portuguesas. Para repartirem petróleo, metais, pedras preciosas e outros recursos, repartiram também a região. Linhas pontilhadas num mapa-mundi delimitavam os novos países, sem a menor preocupação com tribos ou costumes locais. Daí as constantes guerras étnicas que seguem acontecendo. Antes de sair do Brasil, estava lendo esse livro. Quem se interessa pelo assunto deveria procurar por ele por aí. Ou aqui.

Não muito tempo antes, os países latino-americanos se independentizavam de muitas dessas nações. A colonização do outro lado do oceano começou mais cedo e, se não causou tantos problemas entre povos próximos, foi igualmente prejudicial em termos de desenvolvimento econômico e social. Não serve de desculpa para a nossa insistência em não evoluir, mas é um fato histórico incontestável.

Claro, como pessoas inteligentes, estudiosas, cultas e malandrinhas que são, vocês sabem de tudo isso. Mas foi só um repasso pro texto. Sobre um novo tipo de colonização que não vemos ou nos damos conta, mas vai se alastrando pelos mesmos lugares. Legalizada e, muitas vezes, idolatrada. O assunto?

Futebol.

Estão rolando as eleições pra presidente do Barça. Foram cinco debates durante essa semana, com a presença dos quatro candidatos se acusando mutuamente e fazendo promessas de dias (ainda) melhores para o clube. Eles realmente levam a sério o negócio, talvez incentivados pelo sucesso do agora predecessor Joan Laporta - o melhor presidente da história do clube, e que certamente se lançará na política catalã. Ou seja, o clube é uma espécie de trampolim para o poder local. O que não é pouco.

Vendo um dos debates, rolou a pergunta que gerou a postagem: qual seria a política para a masia (local onde se desenvolvem as divisões de base do clube, de onde saíram nomes como Xavi, Iniesta, Pedro, Busquets, Puyol, Piqué e Messi). Ao menos um dos candidatos (talvez todos, não me lembro) defendeu a idéia de levar as masias para "onde surgem os futuros craques, como América do Sul e África, e tê-los desde jovens, já que o futebol hoje é globalizado".

Sim, o futebol hoje em dia é globalizado - como tudo. A não ser que você faça compras em Friburgo, sua cueca (ou calcinha) tem tecido chinês e foi costurada no Vietnã. A preço de banana d'água e podre. Isso não é novidade. O que surpreende é a que ponto chegamos, defendendo a questão em campanha ao vivo na TV. Chegamos a um ponto onde o "próximo futuro craque" de oito anos tem contrato firmado com um time grande - ou não - do exterior, garantias de uma fabricante de material esportivo e passa a ter cada passo vigiado constantemente por um agente Fifa. Afinal, é um investimento e, como tal, deve ser preservado.

Isso gera, entre tantas outras coisas, a enxurrada de jogadores naturalizados jogando nas seleções de outros países, como Cacau ou o braso-japa que tentou matar o Drogba. Algo que fica ainda mais claro em época de Copa do Mundo. E, no embalo, vemos assuntos como xenofobia, identificação com o país de origem, fim das fronteiras futebolísticas ou uso de indivíduos decepcionados com a falta de chance em seu país pra ganhar um título qualquer e gerar patrocínio e riquezas pra federação responsável pelo esporte etc.

Se não desenhamos linhas num mapa, hoje determinamos traços igualmente imaginários que fincam ponto A e B; onde Fulaninho está e onde estará daqui a alguns anos, sem possibilidade de decidir o próprio futuro. Mudou de idéia, quer ser médico? Deveria ter pensado antes de deixar seu papai com primeiro grau incompleto assinar um termo de responsabilidade num contrato em inglês de quarenta páginas decidindo sua vida. Ok, a chance de Fulaninho querer ser médico em vez de jogador de futebol é mínima. Mas não deixa de ser alarmante que ele tenha seus próximos tantos anos de profissão definidos quando ainda mal tem noção da vida. Se existe a discussão sobre decidir a carreira aos 17 anos, época do vestibular, imagina não poder ser nada além de jogador de futebol aos 12. Tendo que treinar pra se aperfeiçoar, o que fatalmente fará com que a escola fique em décimo-oitavo plano.

Esse texto não é ingênuo ou romântico, esperando que os clubes estrangeiros sejam mais humanos ou que seja criada uma política de proteção às crianças e jovens dos países fornecedores de mão-de-obra habilidosa. É um desabafo, por ver que continuamos sendo um bando de ignorantes colonizados pelo primeiro-mundo. Se a maior riqueza de um país é o seu povo, estamos cada vez mais pobres.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A mil por hora

Vocês devem ter percebido que, depois de um tempinho - tá, vai, uns bons longos tempos - trafegando pela Ponte de vez em quando, fugindo dos momentos de trânsito pesado, voltei à ativa num ritmo de postagens frenético. Por quê?, talvez estejam pensando. Respondo, mesmo que não quisessem me perguntar nada.

Porque sim.

Também por querer colocar minhas milhares de idéias pra passear na Ponte, algumas como pré-teste.

Também por acreditar que, quanto mais escrevo, mais tenho vontade de escrever, e melhores ficam meus textos.

Também por buscar um algo mais que passa pela comprovação (ao menos interna) de que não sou tão mal com essa história de misturar letrinhas.

Também por muitas outras coisas que não importam. O importante é que voltei a mil por hora.

Tanto que não quis deixar passar o dia, e escrevi qualquer bobada antes de ver um filme e dormir.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Comida... de leões!

Depois de quatro anos, finalmente chegou outra Copa do Mundo. Pela primeira vez, num país que é logo ali - mesmo estando a 7.983,2 km de mim, agora. Ainda que sejam menos do que os 8.550,8 km que me separam do eu agora para mim, antes. Mas que seriam apenas 7.131,1 km de mim, antes, para o ali, agora.

Enfim, como essa vai ser uma semana corrida, decidi antecipar minhas (sempre duvidosas) apostas e deixar registrado o que acredito que deve passar. Mesmo sabendo que Murphy vai tentar me atrapalhar.



















Que isso, meu chapa, suas apostas estão beleza pura!

Pois vamos lá. A seleção do Dunga é uma bosta. Ele é tão treinador quanto Britney Spears é cantaora de flamenco. Assim como Maradona, mas esse ao menos foi craque e, num daqueles surtos psicóticos que costuma ter, pode acertar. A África do Sul foi escolher o Parreira pra substituir o Natalino, o que prova que não estão nem aí pro Mundial. Todos os times têm brasileiros, alguns melhores que muitos dos nossos - o que não é tão difícil.

Os grupos foram sorteados há muito tempo, não vou comentar porque todo mundo já sabe. Pulo pros prognósticos; o que importa é quem passa:

Grupo A: México e Uruguai. A África do Sul tem o Parreira, e a França só tem o Ribery. Henry deve ser dupla do Tande a partir de 23 de junho.
Grupo B: Argentina e Nigéria. Coréia do Sul não dá pro gasto, e o jogo da Grécia é esse.
Grupo C: Inglaterra e Estados Unidos. Eslovênia até poderia surpreender. Argélia, não.
Grupo D: Gana e Alemanha. Sérvia também poderia surpreender. Austrália, se fosse rugby.
Grupo E: Holanda e Camarões. E aposto no Japão, contra a Dinamarca.
Grupo F: fico com Paraguai e Itália nesse grupo de bosta. Mas é bom os fanfarrões se cuidarem, a Eslováquia pode surpreender. Nova Zelândia é o saco de pancada, mas que deve bater.
Grupo G: Costa do Marfim e Brasil - parelha com Portugal. Coréia do Norte só ataca se for com mísseis.
Grupo H: Espanha e Chile. Ponto final.

Seguem os cruzamentos e Paraguai, Itália, México, Nigéria e Estados Unidos ficam pelo caminho. Brasil cai se pegar a Espanha, mas passa pelo Chile (ou não). Gana, Uruguai e Alemanha também vão morrer na praia. Não lembro como são exatamente os cruzamentos, mas sei que apostava em Espanha, Inglaterra, Holanda e Argentina nas semis. Com a Espanha batendo a Inglaterra na final. Sim, confesso: vou com a Roja. Sou a favor de que vença quem tem o futebol mais bonito, ou o Flamengo.

Fica o registro. Se eu acertar, quero que se lembrem do meu lado Telê-Oswald de Souza-Nostradamus. Se errar, que pensem em como me antecipei às notícias de última hora, com craques sendo cortados, crises no elenco ou medinho. E pra que vocês esqueçam meu possível chute equivocado, podem ficar de presente com essa bela tabela interativa da Copa - a melhor que já vi nos meus 27 anos futebolísticos.

E, se isso não servir ou se vocês acharem que estou exagerando nas críticas à seleção do Dunga (minha, que não é!), que as palavras do mestre refresquem suas memórias.



Porque perder do jeito que nós perdemos...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Quando você deve cortar o cabelo?

a) se levanta e, se não lavar a cabeça ou colocar um boné, não pode ir à rua;
b) até mesmo seus amigos dizem que você tem cara de maconheiro - mesmo sabendo que nunca pôs um cigarrinho do capeta na boca;
c) sente calor no pescoço num "calor" de 28 grau;
d) em todos os lugares onde sai, pelo menos um cretino pergunta se você tem cocaína ou "alguma coisa aí";
e) todas as respostas anteriores.

sábado, 5 de junho de 2010

Oito ou oitenta

Acabei de completar oito meses em Barna. Ao mesmo tempo, me dei conta de que faltam 80 dias pro meu curto vôo Barcelona-Roma-São Paulo-Rio de Janeiro. Começa a contagem regressiva. Mas, dessa vez, com algumas questões que me martelam o martelão:

Volta de vez? Tudo leva a crer que sim. Cansei dessa história de não-casa, não-família, não-trabalho fixo. Desde que mal me entendia por gente, já sabia o que queria ser e como gostaria que fosse minha vida. Falta realizar a segunda parte.

E se te chamarem pra outro lugar? Não gosto de pombos, mas esse sabe o que diz. Ainda assim, cada vez mais sinto que o Brasil é meu lugar. Onde vou fazer uma árvore, escrever um filho e plantar um livro. Seja pelos meus ideais ou pela vontade de fazer parte de um local específico, devo pedroalvarescabralizar, mesmo.

É por isso que você volta? Pelo visto, sim. Família está sempre ao seu lado (e eu, ao lado da minha), amigos de verdade estão presentes ainda que longe (é como busco estar). O resto, ou faz você mesmo ou fica sem. E eu não quero ficar sem.

O que vai ser da sua vida no Brasil? A verdade é que ainda não sei. Volto com minha família como única certeza (não reclamo; muito pelo contrário, amo ser parte de uma família como a minha). Sem emprego, apê ou qualquer outro tipo de segurança. Mas não faz mal, confio no meu taco e não vou demorar muito a ajeitar as coisas. Mas se alguém quiser me manter informado de algumas possibilidades...

Como assim? O quê?

Como assim, sem segurança, e manter você informado de algumas possibilidades? Ah, tá. É que volto com uma mão na frente e a outra atrás - puxando as malas e apoiando o mochilão. Sem grana. E com um mísero shortlist em campanhas integradas do Wave Festival 2010, o que não me faz diretor de criação da Almap. O apê de Copa está nas mãos da minha família gonçalense/curitibana. Etc etc etc. Por tudo isso e muitas outras coisas, informações são sempre bem-vindas.


Mudou alguma coisa? Muitas. Muito. Deixando de lado a parte que não diz respeito só a mim (e que, por isso, diz respeito só a mim), esse "ano sabático de mestrado" fez bastante pela minha cabeça. Até comecei a escrever o que mudou, mas apaguei. Sinceramente não importa. Se isso for verdade, vocês vão perceber. Pro bem ou pro mal.


Enquanto àquela história de confiança? Segue igual. Não dá pra mudar 100% em oito meses, né?

Mais alguma coisa? Sim, várias. Tinha outros pontos em mente quando comecei a escrever esse texto, mas esqueci. Isso é outra coisa que continua igual. Se me lembrar, escrevo uma "parte dois". Por hoje, chega.

Até porque, são 22h30 e preciso decidir o que vai ser do meu dia na noite em que só vão faltar 79 rotações pra minha volta (nada a ver com esse tipo de rotação, por favor).

Pensamento de sábado à tarde

A vingança é um prato que se come frio. E que não alimenta ninguém.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

São dois pra lá?

Época individualista, a que vivemos. A famosa frase de Descartes, "farinha pouca, meu pirão primeiro!", se faz mais atual que nunca. É certo que o ser humano nunca foi um poço de bondade, tampouco poderia adotar facilmente uma postura Gandhi xiita. Mas, vez por outra, seria legal tirar os olhos do próprio umbigo.

Tempos difíceis como esse costumam ser superados com a crença em alguém que você confie. Muito. Que comparta gostos, momentos, sentimentos. Uma pessoa que sirva de apoio - não muleta, mas suporte. Uma espécie de giro-visão humano, normalmente mais bonito e menos aparafusado à parede da sua casa.

Infelizmente, pode passar algo raro: como uma mitose sentimental, esses dois seres tão unidos se separam. Não necessariamente por vontade comum, mas por imposição da natureza do ser humano. A mesma que estabeleceu a época individualista em que vivemos, transformando esse em um período complicado e solitário. Hum...

Isso quer dizer que os organismos separados nunca mais se reencontrarão? Não. A natureza é sábia e, se for para se reconstruírem, cedo ou tarde acontecerá um encontro cósmico-celular com uma espécie de fagocitose canibal carinhosa; então, os dois que estavam mais pra lá do que pra cá serão novamente um único e indissociável ser. Infelizmente, as pessoas exercem poderosa influência no meio onde vivem. Não têm o monopólio das razões das catástrofes naturais, mas podem reivindicar boa parte da culpa do que passa ao seu habitat ao ignorar o que passa ao redor, ou esquecer de dar sinais de vida e da sua própria humanidade. Como se algo justificasse a indiferença diante de seus semelhantes e da natureza onde cresceram.

Ao formarem parte desse meio, as células citadas têm a mesma capacidade de influir em seu caminho outrora natural - seguindo rumos diferentes e, conseqüentemente, formando núcleos celulares distintos. Núcleos que podem se desenvolver eternamente sem voltar a ter contato. Daí surgem a seleção natural, a evolução de certas espécies barra extinção de outras e o Luciano Huck.

Por isso é cada vez mais complicado prever se o futuro de certas espécies será, ou não, um pra lá e nada pra cá.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pelé x Mourinho

Ambos são vitoriosos, ricos e falam português. Pelé Arantes do Nascimento e José Mourinho, o treinador do momento (há algum tempo) têm muito em comum. Inclusive, a incapacidade de manter a boca fechada.

"Pelé calado é um poeta", disse Romário. E dos bons, se compararmos com o nível do que sai quando ele abre a boca. Mas, se ainda não vi o lusitano derrapar em declarações extra-futebolísticas, no que diz respeito ao esporte ele não tem papas na língua. Só que existe uma diferença nada sutil entre os dois.

Pelé sempre disse que Pelé é único (ou seus equivalentes). Quer dizer, o Edson falou. Porque o Pelé é humilde, não fala de si mesmo. Já o Edson, como entidade extra-campo de carne e osso, tem todo o direito de idolatrar, tietar e amar o maior jogador de todos os tempos.

Já o Mourinho declara abertamente que é o melhor do mundo. Sua entrevista hoje, ao ser apresentado pelo Real Madrid, foi de um egocentrismo que beirava o ridículo. Frases como "ainda bem que existem presidentes de clube e diretores de futebol inteligentes que não acreditam nas invenções da imprensa e contratam técnicos como eu" rechearam suas respostas às dezenas de repórteres submissos e ignorantes que lotaram a sala de imprensa. Sem contar suas esporádicas ironias mal-educadas, ou a cara de quem foi dar um peidinho e agora tá na dúvida se pode levantar ou não.

Pelé foi eleito o atleta do século, e o Edson reconhece o feito. Mourinho espera ser eleito o melhor do mundo - pelos outros, porque ele mesmo já se premiou há muito tempo. O Edson fala na terceira pessoa porque é humilde como o Pelé, que não fala das suas façanhas. Mourinho fala em primeira pessoa porque ele é, ele foi, ele será e ele todo-o-possível, como se as suas conquistas - que não são poucas, é verdade - não tivessem sido suficientemente documentadas. Pelé é idolatrado. Mourinho se idolatra.

Por isso o Mourinho é o Mourinho, e o Edson é o Pelé.

domingo, 30 de maio de 2010

Unclutter your life

O sonho de 98% dos meninos brasileiros é ser jogador de futebol. Os outros 2% querem ser astronautas, e jogar futebol na lua. Mas, desde os 11 anos, eu tinha uma terceira opção: ser redator. E jogar futebol, claro. Infelizmente (ou não), a seleção natural atuou através do meu joelho e virei publicitário, pra desgosto da família.

O mundo deu voltas - as famosas rotação e translação - e, depois de 16 anos, estou em Barcelona, andando pela Ponte, terminando o mestrado em propaganda depois de passar por algumas agências no Brasil e outras experiências no exterior. Mas não vou falar de prêmios, idéias loucas ou pizzas de madrugada, senão o título do texto não faria nenhum sentido.

Quando trabalhava na DPZ, eles distribuíram uma folha que falava da filosofia chamada unclutter your life, ou "organize sua vida". A idéia, que provavelmente vem do oriente (como quase tudo relacionado à evolução espiritual), diz que ganhamos tempo e funcionamos melhor se organizamos nossas vidas - começando pelas pequenas coisas, como papéis espalhados na mesa e excesso de notas coladas no monitor. Até onde se aplica, é com você.

É nessa fase que me encontro. Faltando menos de três meses pra minha volta, é hora dar aquela geral. Não na gaveta de cuecas ou nos papéis do curso, mas na vida. Claro, só me dei conta disso depois de ver e ouvir coisas que não queria, passar por situações que não gostaria e me sentir perdido como sempre, tendo as sensações potencializadas pelas ausências - justificadas ou imperdoáveis - de pessoas que amo mais ou menos.

É hora de repensar atitudes, deixando pra trás o que não quero mais levar comigo; de encontrar o ponto de equilíbrio entre o que sou, quem pretendo ser e até onde quero e vale a pena ir; de apagar e-mails, memórias e pessoas (mesmo com minha memória de peixe lobotomizado, certas coisas são difíceis); de arrumar as amizades em ordem de importância e confiança; de traçar planos, anotar os passos na agenda e cumpri-los; de ser quem eu sempre quis ser, e viver como sempre quis viver.

É hora de arrumar a casa.

sábado, 29 de maio de 2010

Mal negócio

Você não precisa ser um gênio para saber que montar uma empresa no Brasil parece uma corrida de obstáculos indoor, pela quantidade de burocracia que deve superar. Sem contar os custos absurdos impostos aos empresários, inversamente proporcionais ao seu tamanho. Quanto menor, mais difícil de sobreviver.

Mas, se você passou os últimos anos da sua vida em coma ou não lê jornal desde a queda do muro de Berlim, pode se informar sobre o assunto em Business Planet. O site faz uma viagem por 183 países, pesquisando dados, analisando suas economias e informando o quão fácil - ou complicado - é começar sua lojinha e contratar um Jacó pra tomar conta.

E o Brasil com isso?, você me pergunta. Bom, tire suas próprias conclusões. Mas é pouco provável que alguém, principalmente quem está lutando pra fazer sua idéia dar certo, veja a posição 129 no ranking de "fazendo negócio" ou 126 no de "iniciando um negócio" com bons olhos. Ou os 16 procedimentos para abrir a empresa, e 120 dias de espera. Tampouco a posição 150 em "pagamento de taxas". Etc etc etc.

E eu com isso?, você me pergunta depois. Aí, vai da sua intenção. Se quer começar alguma coisa, certamente saber disso desanima bastante. Se não tem a intenção de gastar tempo, dinheiro e cabelos com isso, vale lembrar que então alguém deve te contratar. O que desanima bastante a pessoa, caso queira fazer legalmente. Então encontramos salários mais baixos, contratos esquisitos e trabalho informal. Não sei você, mas a maioria da população deve se reconhecer em algum desses pontos.

Eu me poupei ao trabalho de fazer comparações porque chega a um ponto em que um se desespera, e desanima de tal forma que fica difícil acreditar no Brasil. E não quero chegar a este ponto. Mas quem já morou no exterior, ou pelo menos prestou um pouco de atenção quando saiu do país, sabe que fora o transporte é público e funciona, o sistema de saúde é público e funciona, a cultura é integrada, valorizada e funciona... Enfim, posso listar o que for, e a frase vai terminar com "funciona". Claro que existem problemas aqui, e claro que estou falando de países desenvolvidos (Haiti, Burundi e Laos, por exemplo, não), mas é triste ver tudo o que o meu/nosso país poderia ser e não é. E se esforça pra continuar não sendo.

Deve ser complicado começar um negócio com a sensação de que está fazendo um mal negócio.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Filosofia de vida

Se plantaste, espera. Confia, com paciência e sem pressa. Não arranques a semente todos os dias para ver se já está nascendo.
Paramahansa Yogananda

Recebi esse ensinamento no dia do meu embarque para a Europa, num cartãozinho branco que hoje fica de frente para mim, na estante da escrivaninha. Admito que demorou a fazer sentido, mas agora não só entendo perfeitamente como faço um esforço incrível para tentar viver sob essa ótica.

Aos 27 anos e uns meses, sei o que plantei na minha vida, toda a dedicação e cuidado que tive com minhas sementes. A ansiedade freia a paciência e acelera o relógio interno, mas estou trabalhando nisso. Conheço boa parte dos meus defeitos. O problema é que nem tudo na vida depende exclusivamente de você, e esperar reciprocidade em palavras e ações nunca é aconselhável.

Meu maior problema continua sendo confiar nos outros.

O cliente sempre tem razão?

Conversa entre cliente e funcionárias de um supermercado - ou como se comporta um espanhol velho:

Velho: Desse iogurte aí, tem de quê? (em frente à geladeira, olhando pra eles)
Funcionária: Morango, natural e natural sem açúcar.

Velho: Então me põe um de abacaxi. ("me põe + coisa" é como dizem aqui quando estão pedindo algo num bar ou restaurante, falando com o garçom; ele estava em um mercado, com um carrinho de compras)
Funcionária: Não tem de abacaxi, senhor. Só de morango, natural e natural sem açúcar.
Velho: Hum, então me põe esse daí, ó. Eu quero esse daí.

Não sei o que ela respondeu, estava irritado e saí de perto rápido. Com certeza, colocou o iogurte no carrinho do velho. Mas é claro que aquilo ia me perseguir, e pronto ele era o seguinte depois de mim, na fila do caixa. Daí, enquanto guardava minhas coisas:

Velho (antes da mulher começar a passar as compras): Ei, esse iogurte sai pela metade do preço, viu?! Cuidado!
Caixa: Quem disse, senhor? Foi a minha companheira?
Velho: Sai pela metade do preço! Olho aí, hein, dizia metade do preço. Não vai me cobrar mais caro porque ele sai pela metade!
Caixa: Mas quem disse isso, senhor? Minha companheira?
Velho: Ele vale metade do preço! Cuidado, não vou pagar mais! Ela disse, lá atrás.
Caixa: Minha companheira? Ou estava marcado?
Velho: Estava marcado, mas cuidado! Se passar mais caro, não vou pagar!
Caixa: Senhor, se estava marcado, vai passar o preço que o senhor viu.
Velho: É bom, porque eu não vou pagar mais caro!

Agora eu sei o que acontece quando as crianças espanholas insuportáveis que vejo por aqui ficam mais velhas.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Quase morte

Eu tenho pra mim que a melhor maneira de escapar ileso de uma experiência de quase-morte é não passar por ela. Claro que posso estar enganado, como da vez em que não alimentei minha esposa e tentei sair do zoológico abraçado ao hipopótamo. O que foi muito injusto e insensível da minha parte, pois ela já tinha perdido mais de 80 quilos nos últimos meses. Anos, sei lá. Não prestava a menor atenção nela.

A experiência de quase-morte é uma espécie de test-drive do céu. Ou do inferno, dependendo de como você se comportou e se acredita mesmo nisso. Porque sempre tem a opção de dizer "ei, seu cramulhão, você é uma invenção da igreja pra me obrigar a entregar as moedas que ia gastar na máquina de refrigerantes!". Se tiver a mente muito forte, pode acabar com a visão do fogo eterno. Ou então fingir que não sente nada, caso o diabo realmente exista e não vá com a sua cara depois da tentativa frustrada de desacreditá-lo.

Voltando ao test-drive, ele não tem seguro (os bancos ainda não cobrem isso, por mais que os valores das apólices pareçam incluir até queda de pêlos da orelha). Se você bater as botas, é perda total. Não sei de onde sai a ilusão de que vai ser uma boa história pra contar e que todo mundo vai te pagar cerveja enquanto escuta como é o outro lado, quem te recebeu e se a luz divina funciona com sensor de presença.

Imagina a situação: você cai da escada da 4x4, escorrega numa revista de subcelebridades de três anos atrás que estava no chão da recepção do Werner Coiffeur ou xinga o motorista que te deu uma fechada antes de perceber que ele é duas vezes maior que a porta da sua garagem. Daí, sente alguma coisa e não se lembra mais de nada - também conhecido como ir para o hospital em estado de coma. O que acontece?

Então, não sei. Nem você. E é aí que mora o perigo (na Vila Cruzeiro o perigo só dorme, normalmente nas noites de pagode; é perigoso sair de lá de madrugada). Além de você poder morrer, o que não é legal se comparado a estar vivo, podem acontecer coisas muito piores. Quase pior que ser mãe do Serginho, do BBB.

Você pode despertar em estado vegetativo. Além da palavra despertar ser irônica, já que você não recobra a consciência, o termo estado vegetativo é maldoso. Chamam assim porque a pessoa - que, no caso, seria você - se parece a uma alface, ou um abacateiro. Sendo que não faz fotossíntese, ninguém rega e o Greenpeace não se amarra em volta pra defender.

Você pode voltar sem algumas funções básicas e seriamente afetado. Deve ser doloroso acordar falando como a Hebe, com o senso de humor do Faustão ou como o Rubinho, num aspecto geral.

Ademais, caso você sobreviva sem nenhum tipo de seqüela, ainda vai ter que passar por um longo período de recuperação. Ou seja, vai ter sempre as mesmas histórias pra contar - se transformando no famoso chato.

Assim, quando pensar em ter uma experiência de quase-morte, fique com a definição dos franceses, que chamam o orgasmo de petite mort. O gasto com saúde se resume à camisinhas, o tempo de recuperação varia entre uma soneca e a reativação do princípio ativo do Viagra e você vai ter muito mais histórias pra contar.

E, se ela for feia ou fingir a petite mort, você não precisa de atestado médico pra inventar o que viu.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Coisas que penso quando tenho insônia

O português é uma língua muito rica. Menos pra quem é pobre.

Se fazer música baiana fosse um pouco mais fácil, Paulo Coelho era cantor de axé.

Tem gente que nasce com a bunda virada pra lua. Quando o Rubinho nasceu, teve eclipse.

Sacrifício é uma questão de ponto de vista. Se ninguém vê, então não é.


Se Jesus se sacrificou por nós e ninguém aprendeu nada, por que comigo seria diferente?

Também escrevo blues. Desde quando? Desde a semana passada, creio. E deve ser meu próximo texto aqui. Ou não, porque do jeito que (não) tenho dormido, minha memória deve estar sendo seriamente danificada. Daqui a algum tempo, vou me considerar um cara de sorte se me lembrar do meu nome.

sábado, 22 de maio de 2010

Inferno astral

Quem acredita em astrologia ou conhece alguém que acredita (meu caso) sabe o que significa o termo "inferno astral". Resumindo, é um período que antecede seu aniversário quando acontece um combo de cagadas. Deve existir uma explicação que envolva Ursa Maior, Mercúrio retrógrado e o sol na casa do seu signo, mas pra mim é só pra que a pessoa pense "ainda bem que meu aniversário está chegando".

O meu é dia 22. Não hoje, não do mês que vem. De janeiro. Ou seja, faltam exatamente oito meses pros meus 28 anos. Não me parece muito próximo, ou ao menos não sinto assim. Mas o inferno astral chegou chutando a porta com bota do exército reforçada por um prego enferrujado no bico.

Em duas semanas, tive a pior notícia da minha breve vida, perdi uma viagem à Pisa por culpa de um vulcão que nem sei falar o nome, voltei a sentir dor no joelho depois de correr, recebi uma proposta de estágio ridícula - e descobri ao mesmo tempo que estrangeiros são sobretaxados pelos governos europeus, acabei de perder uma viagem à Cagliari por fatores externos que me atrasaram (além de uma bela ajuda da minha parte). Se me esforçar, sei que lembrarei de mais coisas. Prefiro guardar minhas energias.

Sou o tipo de pessoa que não só vê o copo meio cheio como ainda levanta e vai à cozinha botar mais água, mas o que me incomoda nisso tudo é que o combo mega-maxi-ultra-power de porcarias veio depois de um dia em que acordei com aquela sensação de que o mundo te ama e não existe ninguém mais feliz na vida. Um dia em que me levantei disposto a corrigir problemas e ser uma pessoa melhor. Um dia em que o sol bateu no meu rosto enquanto se esquivava de umas folhas no caminho pra praia de onde moro, e que me fez pensar nas maravilhas da natureza. Ou seja, não tomei uma ducha de água fria. Fui soterrado por um iceberg.

Mas, vamos lá. Vida que segue. Sentado no sofá de casa, onde achei que só estaria daqui a quatro dias, tento enxergar o lado bom disso tudo, repenso meus planos e traço novos caminhos e estratégias pros próximos dias, meses e - quem sabe? - anos. Sinceramente, ainda não sei se o que incomoda mais é a indecisão ou a indiferença, os contratempos ou as mentiras. Muita coisa dói, e muito. Em todo o caso, fico com o conselho da minha avó: "mija que passa".

quarta-feira, 12 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Eyjafjallajokul, eu e a minha mãe

Mais uma vez, sou obrigado a deixar a série de textos sobre Malta pra depois. Dessa vez, graças à mãe natureza. Aquela que, ao menos por mim, não será homenageada hoje.

O Eyjafjallajokul não é o maior vulcão da Islândia, nem o mais importante. Mas resolveu que era hora de aparecer. Não por pouco tempo, só pra dar uns dias de notícias para os jornais de todo o mundo. Por muito, muito tempo. Espalhando cinzas e caos pela Europa. E cancelando vôos.


O pior de ter um nome impronunciável é que não consigo xingar com propriedade. Dizer "esse vulcão" prejudica bastante minha intenção de odiá-lo. Porque, depois de planejar por um mês quatro dias em Pisa, encontrar sofá e albergue, criar um mini-dicionário básico fundamental de italiano e descobrir coisas que me encantaria fazer, ele fechou o espaço aéreo espanhol e bloqueou meu avião.


Posso resumir meu sábado assim: acordei cedo, perdi aula e paguei 23 euros por um bilhete de ida e volta ao aeroporto de Reus. Viajo uma hora e vinte e dou de cara com um painel que informa o cancelamento de vários vôos. Entro numa fila da RyanAir por mais de uma hora, tendo que dissimular minha decepção enquanto impedia milhares de tentativas de uns marroquinos cretinos de passarem na minha frente. Arrumo um reenbolso pra cerca de dez dias, não sem antes aturar uma catalã dando piti com a funcionária que me atendia. E que queria chamar a polícia, o que atrasaria consideravelmente minha saída daquele inferno.


Por demorar nesse processo, não havia mais ônibus pra Barna quando saí do sagüão. Eram 13h, e o seguinte sairia às 16h ou mais. Paguei 2,20 € por um ônibus pra estação de trem da cidade, mais 7,40 € por uma passagem de volta e 1h de viagem. Demorou mais, claro. E fui obrigado a agüentar um ser roncando metade do trajeto. Ah, sim, perdi a grana do bilhete de volta do ônibus, não reembolsável.


Apesar de tudo isso, estive surpreendentemente calmo durante todo o dia. Talvez porque, no fundo, sabia que não posso me irritar com o inevitável. De que adiantaria me estressar se não ia mudar absolutamente nada? Já tenho muita coisa que tira meu sono, o que não tem jeito não pode entrar nessa lista. Uma prova do meu amadurecimento? Espero.


Só sei que, graças a esse belo sábado, eu descobri que a mãe natureza é mãe também dos juízes de futebol.


***

Mas essa história não pode apagar a estrela do dia: a mãe. Especialmente a minha, que me atura há tanto tempo e conseguiu transformar a união de um óvulo com um espermatozóide em um adulto minimamente educado, com algo de inteligência e tão bom quanto a vida o permite ser.

Minha mãe não lê meu blog, não deve saber que tenho um e, provavelmente, nem sabe o que é um blog. Mas escrevo isso porque ela merece. Porque não é todo mundo que acorda de madrugada pra saber o que você tem. Que faz seu prato favorito quando você está triste por algum motivo que não quer dizer a ela. Que liga sem avisar porque sentiu que você precisa de um afago - e você realmente precisa.

Não é todo mundo que faz previsões que não te agradam, acerta e no fim das contas você se dá conta de que era exatamente o que gostaria. Que chora porque você conseguiu seu objetivo, por mais bobo que seja. Que conta vantagem pras amigas por coisas que você considera normais. Que agüenta sua fase chata de criança, cretina de adolescente e sumida de adulto. Que engole suas palavras feias e louva cada mínimo elogio. Que se orgulha de ter sofrido pra você nascer, e que continua se orgulhando por anos, décadas, o tempo que estiverem juntos, por tudo o que você faz, é ou está. Que se sacrifica por alguém que, segundo a (triste) lógica da vida, viverá mais do que ela. A distância (graças a Deus, física, de "apenas" um oceano) me faz perceber cada vez mais como ela faz falta. Assim como pai, irmão e pessoas amadas em geral.

Quilômetro é uma unidade de medida diretamente proporcional à saudade, e potencializada por datas especiais.

Mesmo tendo consciência de que esta é uma invenção comercial, e de ser dos que defendem que todo dia é dia das mães, não poderia deixar de falar um pouco de uma das pessoas que amo mais que tudo nessa vida. Mais que a mim mesmo, inclusive. Não por falta de amor-próprio, e sim desprendimento pessoal por algo - alguém, no caso - infinitamente maior e melhor do que eu, e que merece todo o amor do mundo.

Por isso, ainda que eu acredite que minha mãe não vai ler esse texto, digo: feliz dia das mães. Te amo.

E, para todas as outras mães da minha vida (tias, avós, sogra, mães de amigos e agregadas em geral), um excelente dia de hoje. Desejando que os outros 364 sejam ainda melhores e mais especiais.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Fleet Foxes

Enquanto a discussão sobre a marcha da maconha rola nos comentários do texto anterior (a Ponte não é uma via de mão única, nunca se esqueçam disso), volto à programação normal. Escrever. Depois de uma (outra) noite de pesadelo, insônia e luz na cara às 7h.

Há muito tempo atrás, descobri From the Basement: um projeto sem nada de inovador, levar grupos pra um estúdio e gravar versões diferentes das suas músicas. Mas com belas escolhas de participantes (nomes como Beck, Iggy and the Stooges, Queens of the Stone Age e Sonic Youth já deram o ar da graça) e excelentes resultados. Em todo o caso, tão bom quanto ver Gnarls Barkley e seu Crazy relax ou uma versão ramadã de Blower's daughter é descobrir gente que nunca tinha escutado - para a tristeza dos meus ouvidos. Entre os que poderia citar, fico com Fleet Foxes.

Sim, eles são indie. Mas o quinteto de Seattle com influências de gente como Bob Dylan (tá, o cara influenciou meio mundo, mas e daí?) faz um som interessante e muito bom. Não defino de outra forma por dois motivos: um, não sei. Dois, não importa. Acreditem no meu gosto eclético e seletivo e escutem os caras. Compensa.












Oooooooooooooooooooooobrigado, Alexandre!

Aí você me pergunta "e por que não Eels, Jose Gonzalez, My morning jacket ou Zee Avi"? Sei lá, mas escrevendo essa frase acabo de falar deles também. Vai lá e escuta todo mundo. Vale a pena.

Mas quero esclarecer uma coisa: nada disso vale pra CSS, que odeio e está lá por algum motivo obscuro. É como encontrar Paulo Coelho na seção religião, ou troféu na sala de troféus do botafogo. Simplesmente sem sentido.

ps: uns dias atrás, o Update or Die me deu o prazer de descobrir Bombay Bicycle Club. Pesquisei, escutei e gostei de todo o álbum. Todo. Acho que isso não acontecia desde que me deram de presente o CD do penta de 92, com a foto do Júnior comemorando o gol contra o botafogo (com minúscula, sempre) na capa.

domingo, 2 de maio de 2010

Marcha da maconha

Acabei de voltar de Malta, entrei nos três últimos meses de estada na Europa, vi o Barça ser eliminado da Champions por um time que pratica o anti-futebol, o desemprego no país onde vivo passou dos 20% da população ativa. Mas me senti na obrigação de deixar tudo isso pra depois e escrever sobre a marcha da maconha, no meu querido e distante Rio de Janeiro.

Quem me conhece sabe que não fumo, não fumei e passei da idade de bancar o rebelde pra experimentar ou desafiar o sistema. Também sabe que tenho amigos que já fumaram ou fumam e não discuto isso - cada um faz o que quer da vida, e tampouco sou melhor que os outros pra julgá-los. Mas a questão aqui é a marcha pela legalização. Falam de "fim da hipocrisia". Dizem que, se fosse legalizada, haveria menos mortes pelo tráfico de drogas. Bom, que tal pensar um pouco mais longe? Viajar, pra entrar na onda da discussão.

Não é a ilegalidade das drogas que gera violência no país. É a desigualdade social. Legalizar vai mudar esse panorama? Vai gerar milhares de postos de trabalho e melhorar a distribuição de renda? E, se fosse legal, você (que fuma) compraria maconha numa loja oficial? Nada pessoal, mas o que vejo são pessoas comprando cerveja na mão de ambulantes, camisas de clubes falsificadas, CDs e DVDs piratas, sempre  justificando que são mais baratos. Maracanã, entrada de shows, Uruguaiana, camelôs em frente ao Madureira Shopping, o que não falta são exemplos pra comprovar o que digo. Alguém disse hipocrisia?

Ah, sim, a Holanda. Bom, quem estudou ao menos um pouco de história sabe que ela é desenvolvida há alguns séculos. Seu povo tem um grau de educação avançado e o nível de vida no país é algo inimaginável para nós. Os garis são bilíngues, eu (ou)vi. Eles podem discutir a legalização de drogas tanto quanto a eutanásia, por exemplo. Porque há poucos motivos reais de preocupação no país, como a subida do nível do mar e a construção de diques. Inclusive, eles deram uns passos atrás no assunto quando o país virou playground mundial de junkies que aproveitavam o fato pra se entupirem do que encontrassem pela frente. Ahan, sei. Hipocrisia.

Quem foi pra marcha certamente passou por mendigos, crianças de rua e outros desafortunados. E o que será que toda essa gente fez pelos marginalizados, eu me pergunto? Pagou um lanche, ouviu seus problemas, ofereceu emprego, indicou uma casa legal onde eles podiam encontrar ajuda? Ou fingiu que não viu, disse que não tinha moeda e guardou o dinheiro (talvez ganho com o trabalho, talvez saído do bolso do pai) pra rachar um tijolo entre os amigos? Hipocrisia?

Legalizar a maconha ou qualquer outra coisa deve ser algo a ser decidido pelo povo, verdade? O nosso, no caso. Que não tem educação de qualidade oferecida pelo Estado - que obriga os professores do ensino público a aprovarem os alunos e compensa a falha com sistemas de cotas. Que é considerado leitor quando lê 1 livro a cada três meses (metade da população, sendo que metade são livros didáticos - ou seja, lidos por obrigação). Que passa fome, que vive em favelas, que se equilibra no emprego em um país onde o salário mínimo é de R$ 510,00 e um livro custa pelo menos 5% desse valor - e que, ainda assim, vai pro bar torrar o que não sobra em caixas de cerveja, vendo futebol. Que tem como principal atração novela das 20h e BBB. Que não se informa sobre os candidatos em que votam e repetem os mesmos erros de eleições anteriores. Esse povo é quem deve decidir, verdade? Hipocrisia, o quê?

Todo o recurso a ser usado na votação e na aplicação das novas normas caso a lei seja aprovada me parece um absurdo, se pensamos na quantidade de problemas e projetos muito mais importantes para a população em geral: saúde, saneamento básico, segurança e, claro, educação e cultura. Não vejo muito sentido assumir esse compromisso financeiro quando tem gente morrendo em deslizamento de terra por morar sobre um lixão ou criança fora de escola porque tem que levar dinheiro pra casa pra ajudar a mãe solteira que faz bico em casa na Zona Sul. Onde houve a marcha pela maconha, e reclamaram da hipocrisia.

Pelo visto, pegar um sol e batucar na orla é muito mais fácil que encarar nossos verdadeiros problemas. E não falo isso como não fumante, espírita, futuro pai de família ou o que seja. Falo como humanista. É que ficar relaxadão com os amigos matando a fome da larica enquanto o resto do país se vira como pode me parece a verdadeira hipocrisia. Como a marcha pela legalização da maconha.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Há dias

O verbo haver é engraçado, apesar de eu nunca rir muito dele. Ou com ele, pra não ser irônico com um grande auxiliar da nossa língua. Caso você fale como eu, claro. Sendo que eu relevo sotaques, gírias e palavras diferentes em geral. Tudo em prol de Camões, Fernando Pessoa e Beto Jamaica.

Há dias eu penso em escrever algo além do que tenho feito. Mais do que problemas de caráter pessoal. Até que, de repente, a gente percebe que "problema" é uma palavra mal utilizada. Problema é tão relativo quanto a teoria de Eistein, só que envolve semântica - aquela palavra que ninguém entende muito bem onde entra ou como funciona no dia-a-dia.

Há dias em que a gente espera A e acontece B. Há dias em que estamos assim e passa assado. Há dias tenho uma sensação estranha que defino como saudade. Há dias eu espero que algo aconteça, que algo venha e me mostre porque há dias em que um simples telefonema muda tudo.

Pois aí está. Aqui, no caso. Hoje. Uma perda que dói como se fosse minha, que mexe comigo como se estivesse batendo no meu ombro enquanto penso no que não gosto de imaginar. Como aquele conhecido distante que, vez ou outra, chama baixinho pra avisar que ainda existe, que nunca esquece de ninguém e que estará sempre ali, à espreita, esperando uma oportunidade para se fazer maior que você.

Há dias em que a gente entende porque é tão pequeno, se comparado ao universo que nunca vamos conhecer mas que nos espera a todos.

sábado, 17 de abril de 2010

Palhaço!

A natureza não foi sábia o suficiente para fazer dos cretinos uma raça estéril (notícia de 2008, cretino atual). Mas o que li no outro dia vai além de qualquer babaquice imaginável, até mesmo pelo mestre. Porque vem de um pai. Ou mãe, não importa. As últimas pessoas nesse mundo que um filho imaginaria que fariam uma brincadeira desse nível (se, depois de lerem meu texto, vocês ainda duvidarem da história, é só voltar no link pra comprovar).






















Tu tá na mão do palhaço, moleque!

É isso mesmo que você (provavelmente não) entendeu. A moda agora são pais que contratam uma figura como essa aí de cima - um Freddy Krueger confeiteiro com a peruca da Duquesa de Alba tingida com marca-texto - pra seguir os filhos pela rua, ligar e mandar mensagens psicopatas por uma semana. Ou seja, sete dias de medo pra que está pra fazer aniversário. Porque isso é uma espécie de presente. Sério.

Ah, só pra constar: a criança só ganha o bolo - muito mixuruca, diga-se de passagem - se fugir da torta na cara. Ou seja, além de sofrer todo esse terror psicológico a criança ainda volta cagada pra casa. Engraçadão, hein, papai e mamãe?

"Pai, me dá um Wii?"
"Quê?! Pedindo presente?! Ahhhhhhhhhhh, muleque!"

Sério. Nem se a criança fosse filha do irmão bastardo do limpador de piscinas Meplastic do vizinho mereceria essa surpresa. E ainda tem gente que não entende porque os menores têm medo de palhaço. Até eu teria!

Mas o mundo dá voltas, e o imbecil que armou essa surpresa vai pagar caro por isso. Ou vocês já viram algum psicólogo cobrar barato pela hora da consulta?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Saudade?

Talvez, se isso for aquela coisa que faz tudo recordar o que deixamos pra trás - ou momentaneamente de lado. Desde um dia que começa com o sol batendo forte na sua janela até um mísero meio pacote de feijão guardado no fundo do armário, e que você encontra sem querer.

Talvez, se isso for aquela palavra que só existe em português e que precisamos de um dia inteiro para explicar. Ou um telefonema para justificar.

Talvez, se isso for aquela história de "tá tudo certo", "não vou pensar nisso agora", "tudo se ajeita, sem problema" ou outras frases entre aspas.

Talvez, se isso for aquela vontade de saber de quem é importante para você.



Notícias de todos, quero saber.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A culpa é da chuva!

Como a chuva no Rio não pára, sinto a obrigação de voltar ao assunto. Pensava em fazer um resumão antes de dizer o que quero, mas como sairia daqui, mesmo, fica o link pra quem se interessar.

Caso você não queira ler e tampouco se lembre das aulas de história: desde o início, o processo de favelização está ligado à política. Ex-escravos que não possuíam terra, desocupação forçada promovida por Pereira Passos no início do século XX, ocupação de áreas menos valorizadas e sem infraestrutura (que costumam ser os morros dentro ou ao redor dos centros urbanos).

O tempo passou, as favelas se multiplicaram em número e tamanho e os problemas pioraram consideravelmente, com a grande quantidade de pessoas sem acesso a serviços básicos e o domínio do tráfico. O descaso se manteve, e o processo não só não foi estancado como os sucessivos governos foram permissivos, oferecendo uns poucos e insuficientes serviços. Tudo para manter os votos. Como extra, seus moradores foram taxados de favelados.

O acúmulo de cagadas ao longo das décadas e de gente em condições precárias de vida cedo ou tarde acabaria em tragédia. Ensaiamos ao longo de umas quantas chuvas de verão, expandimos o projeto genocídio de pobres para outras cidades, mas nos mantivemos firmes e fortes no Rio, esperando o dia em que mataríamos muita gente de uma vez só. Muito bem, conseguimos.

Adendo rápido: vale citar a incrível força de vontade de umas quantas famílias, que em várias comunidades resolveram manter seu barraco em vez de agarrar com os dois braços, pernas e boca a sorte de receber uma casa popular. Podem dizer que tinham feito a vida onde estavam, que era melhor para ir ao trabalho, que ficariam marcadas por viverem nesse tipo de construção. Mas apostar com a morte pra ver se o vizinho seria soterrado antes não me soa uma alternativa muito inteligente.

http://www.excelencias.org.br

Pelo amor de Deus, vamos parar de culpar o volume de chuvas que caiu num dia, São Pedro etc. Poderia cair o mundo que, se não houvesse gente nos morros, hoje não haveria tragédia. Tragédia de verdade são os nossos governantes.

Já que temos alguns meses até as eleições, vamos nos informar um pouco sobre quem está no poder. Ver o que fizeram, se têm algum processo. Coisas simples que podem evitar a reeleição de uns quantos cretinos. Melhor que apertar uma combinação qualquer na urna eletrônica e ver quem sai. Ver o site e votar com consciência é o mínimo que podemos fazer agora. E o que deveríamos estar fazendo há muito tempo.